Por Luciana Ramos

 

Por vezes, a realidade se torna tão difícil de aceitar que o ser humano recorre ao fantasioso – como escape, auxílio, instrumento de catarse. Essa é exatamente uma das funções do cinema e é dessa fantasia que “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” utiliza para tecer uma alegoria sobre infância, maturidade, doença e dor.

 

Na trama, adaptada para o cinema pelo escritor do livro homônimo, Patrick Ness, Conor (Lewis McDougall) é um garoto de 13 anos que mora com uma mãe (Felicity Jones) jovem e amorosa, porém bastante doente. Sua personalidade artística incentiva o filho a desenhar e o menino usa a árvore que vê da sua janela para criar um monstro (voz de Liam Neeson) que toma vida e aparece com uma proposta: o chamará, sempre após a meia-noite, para lhe contar três histórias. Em troca, exigirá ouvir do garoto o segredo que esconde, que considera impronunciável.

 

As histórias frustram-no pelo caráter dúbio e, por vezes, paradoxal, mas o levam a gradualmente compreender melhor a situação em que se encontra e, mais importante, a compreender a complexidade das pessoas ao seu redor: em especial a avó (Sigourney Weaver) com quem não se dá bem e o pai (Toby Kebbell) que há muito o abandonou. Mais do que um simples filme de monstro, a obra de J. A. Bayona revela-se uma imersão no medo da perda.

 

 

 

Ao mesmo tempo visualmente grandioso – com cenas recheadas de CGI que mostram os galhos do monstro corroendo os espaços à medida em que encurrala Conor – “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” surpreende pelo seu caráter intimista; dando, assim, um grande salto no estabelecimento de uma conexão emocional com o espectador.

 

Nesse sentido, cenas simples, como a conversa entre o menino e sua avó em um carro debaixo de chuva ou a que assiste a versão original de “King Kong” em 16mm com a mãe ganham relevância por aprofundarem os personagens, a interação entre eles e o peso de cada na constituição do protagonista. Em especial, a frustração de Conor ao ver a derrota de Kong (por quem estava torcendo) é um importante indicativo de que nem tudo na vida se concretizará do jeito que ele espera.

 

O filme se apoia muito na atuação de Lewis McDougall, que expressa emoções através do seu rosto, traduzindo a confusão, raiva, fragilidade e medo que seu personagem sente. O bom exercício do trabalho de ator é absolutamente fundamental para a credibilidade dessa obra e ele consegue expressar a complexidade de Conor pelo olhar.

 

 

 

Unindo boa trama à concepção estética eficiente e diversificada (que não deixa de lembrar um pouco “O Labirinto do Fauno”), o longa não é isento de escorregões. O mais importante é a inserção da subtrama de bullying que, embora atual, parece forçada em meio a toda a carga já trabalhada. Não obstante, há a atuação engessada de Sigourney Weaver, que não parece à vontade no papel e, consequentemente, só consegue demonstrar maior profundidade na última cena em que participa.

 

Esses elementos, no entanto, nem de longe prejudicam a imersão na jornada psicológica de Conor, que usa um monstro ancião e bondoso (embora assustador) para lhe ajudar a expressar seus sentimentos. Ao final, a sua revelação coroa seu processo de entendimento, emocionando pela humanidade contida nas suas palavras. “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” é um filme muito bem executado que sai do comum para trabalhar, através da fantasia, um processo identificável a todos os seres humanos e, por isso, merece ser visto.

 

 

Pôster

 

 

Ficha Técnica

Ano: 2016

Duração: 108 min

Gênero: fantasia, drama

Diretor: J.A. Bayona

Elenco: Lewis McDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Liam Neeson

 

 

Trailer:

 

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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