Por Marina Lordelo

 

O mestrado de Mateus Dantas sobre Walter Smetak torna-se grandioso com o investimento de outros dois artistas audiovisuais, Simone Dourado e Nicolas Hallet, que embarcam em uma jornada de anos para conseguir exibir em 96 minutos uma obra que apresente o músico suíço para os seus espectadores.

Walter Smetak foi um artista e professor da escola de música da Universidade Federal da Bahia e, em suas pesquisas acadêmicas sobre esta figura póstuma ilustre (faleceu em 1984), Dantas entende que filmar os entrevistados pode ser mais interessante do que gravar os áudios dos seus relatos. A partir desta premissa e em uma profunda empatia com as angústias e (ins)pirações do professor falecido, o diretor-pesquisador assume uma persona na tela que afeta a sua relação direta com o sujeito da pesquisa e consigo mesmo.

Som e imagem se fundem em uma intensa experiência “Smetakiana” e os realizadores escolhem conduzir a experiência fílmica por uma espécie de circuito áudio-sonoro intercalado com entrevistas que acontecem a partir de dispositivos diversos. E essa alternância imagética, ainda que despretensiosa em sua concepção inicial, toma um grande sentido simbólico e de linguagem cinematográfica para expressar o que Smetak tentava alcançar a partir de suas experimentações sonoras. A alquimia que o filme preconiza é evidente nas escolhas de enquadramento e montagem, quem vem a ser orientadas pelo uso criativo do som – todos em uma lógica crescente de quebrar paradigmas da narrativa clássica.

O microtom, um conceito trabalhado dialogicamente no filme, é experimentado não só em instrumentos convencionais como também em peças criadas e através de sons urbanos, como em um plano onde uma profusão de carros engarrafados buzinam em tonalidade que parece ser desafinada ao ouvido mais tradicional. A disposição gráfica da imagem é imediatamente ressignificada pela lógica sonora Smetakiana.

E se havia uma preocupação legítima dos realizadores em registrar uma história em que tantos faleceram no processo, há cuidado e delicadeza em desmistificar o folclore que há em torno da figura de Smetak – sem dúvidas um artista, mas também pesquisador e docente limitado pelo tradicionalismo acadêmico e humano. Smetak não era apenas avant-garde no sentido ampliado da palavra, ele era um criador de sensações psíquico-emocionais em um estado de incompreensão. E mesmo hoje a humanidade não estaria, ainda, preparada para ele.

 

*Esta crítica faz parte da cobertura do VII 7 Olhar de Cinema de Curitiba. O filme ainda aguarda a sua distribuição comercial.

 

Pôster:

 

 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica:

 

Ano: 2018

Duração: 96 min

Gênero: Documentário / Biografia

Diretores: Simone Dourado, Mateus Dantas e Nicolas Hallet

 

Trailer:

 

 

Avaliação do Filme

Veja Também:

Do Jeito que Elas Querem

Por Luciana Ramos   O fenômeno literário criado por E.L. James com a trilogia “Cinquenta Tons” certamente seria explorado comercialmente...

LEIA MAIS

A morte de Stalin

Por Paulo Lannes   Seguindo o revisionismo promovido pelo cinema de grandes personalidades do século XX, era de se esperar...

LEIA MAIS

Oito Mulheres e Um Segredo

Por Lanna Marcondes   Em 2001, o mundo conheceu a história de Danny Ocean (Clooney) em “Onze Homens e Um...

LEIA MAIS