Por Bruno Tavares

 

Aclamada pelo júri de Cannes, a diretora japonesa Naomi Kawase é a queridinha da mostra francesa. Sempre que exibe longas no evento ela leva para casa pelo menos uma premiação. Não é para menos: seu cinema possui uma sutileza rara, está repleto de metáforas profundas e constantemente evoca a relação do homem com a natureza. “Esplendor”,seu novo filme, segue a cartilha de sucesso de seus predecessores e venceu em 2017 o prêmio do Júri Ecumênico no festival.  Agora, o título chega ao Brasil sem grande alarde, mas com um conteúdo encantador.

A trama é focada em Misako Ozaki (Ayame Misaki), uma mulher apaixonada pela sétima arte que escreve versões de filmes para que cegos possam escutá-los no cinema. Quando o longa começa, ela encontra-se em um projeto desafiador, lutando para transcrever corretamente as emoções de um drama. Antes de lançar a versão oficial, ela lê o texto para um pequeno grupo focal, formado por deficientes visuais. Entre os integrantes está Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), um ex-fotógrafo muito renomado que se aposentou da profissão devido à perda progressiva da visão.

Ambos os protagonistas possuem suas amarguras. Enquanto ela sofre com a ausência do pai, falecido quando ela ainda era pequena, ele lamenta a doença que lhe impede de fotografar. Para amenizar o sofrimento, ambos mergulham de cabeça no trabalho. Como forma de treinamento ela descreve tudo: desde os pequenos objetos deixados pelo pai até as situações que vive, detalhando sons, expressões faciais e ações. Já ele se entrega à programação de softwares sem nunca abrir mão de suas câmeras. Por estar acostumado a traduzir a beleza do mundo em imagens, Nakamori se mostra o integrante mais exigente do grupo focal e, por vezes, é rude com Misako a fim de que ela entregue a melhor descrição fílmica que puder.

 

 

Como um bom exemplo da obra de Kawase, “Esplendor” possui inúmeras metáforas e camadas narrativas implícitas.  A maior de todas elas de certo é a homenagem que a diretora faz à sétima arte. O ato de ir ao cinema e as emoções despertadas nos espectadores, estejam eles vendo ou ouvindo a obra, são mostradas de maneira quase cerimonial. É tocante ver o poder do audiovisual e como ele influencia a vida de tantas pessoas. Além disso, a produção usa com sabedoria elementos metalinguísticos para destacar os momentos em que vemos um filme dentro do filme.

Por meio de um roteiro bem escrito, o título utiliza uma grande quantidade de citações emblemáticas que enchem de calor o coração da plateia. Uma delas foi proferida pelo fotógrafo, quando este afirma que “o cinema é um universo imenso e traduzir tamanho cosmos em palavras é uma tarefa dantesca”. A principal afetada por tal citação é exatamente a protagonista, por relacionar-se  com o produto final de seu trabalho. Ela precisa transcrever o filme sem imprimir seus sentimentos sobre a história para que os deficientes visuais possam formar sua opinião livremente.

Outra frase, dessa vez dita por Kitabayashi (Tatsuya Fuji), diretor da produção que a garota está traduzindo, também merece atenção. Ao ser questionado sobre o sofrimento do protagonista após a morte da esposa na cena final de sua película, o diretor responde apenas que “existem pessoas que morrem mas gostaria de continuar vivendo e, da mesma forma, é possível ver pessoas que estão vivas, mas gostariam de ter morrido”. Tal descrição cabe com uma luva para os dois protagonistas, que por vezes choram os reveses que a vida lhes deu. Vale ainda analisarmos uma última fala, que funciona como a maior prova da qualidade do roteiro. A certa altura da trama, Misako profere que “se afastar do que você mais ama é insuportável”. Com apenas esta sentença, a mulher caracterizou nada menos do que seis situações distintas no filme, nas quais os personagens sofreram amargamente por se verem longe da pessoa ou do objeto amado.

Permeado por tons amarelos, o longa possui uma relação muito próxima com o pôr do sol. Este fenômeno marca grandes despedidas e está relacionado de alguma maneira aos plots de todas as figuras dramáticas. A protagonista, por exemplo, tem como última lembrança do pai uma foto tirada ao entardecer. É também nesse período do dia que ela vê sua mãe perder de vez a sanidade, após anos de esclerose. Nakamori se despede de sua querida câmera no lusco-fusco. Já o personagem do filme traduzido enfrenta a morte de sua esposa durante o crepúsculo. Todos estes momentos abusam do contra luz e, por vezes, chegam a imprimir um grande clarão na tela, reproduzindo um tipo de cegueira para o espectador.

 

 

Complementando a lista de acertos de Kawase, vale ressaltar sua utilização da câmera. A diretora abusa de closes e planos detalhes, mantendo o foco apenas nos olhos dos personagens, o que é curioso em um filme que tem a cegueira como tema principal. Ainda para demostrar desequilíbrio e desorientação dos deficientes, ela movimenta a câmera de forma trêmula e fora de esquadro para ambientar o público nas incertezas da falta de visão. Os únicos momentos em que o quadro se mostra amplo e estático são nas cenas que exibem a natureza, tema que também é recorrente na obra da japonesa.

Mesmo com tantos acertos, “Esplendor” pode parecer arrastado para aqueles acostumados com produções aceleradas e com muitos efeitos. Entretanto, caso o espectador se deixe envolver pelo ritmo lento do filme, será presenteado com uma história profunda e cativante, repleta de personagens densos e interessantes. Tal combinação é impossível de resistir, como o Festival de Cannes tão bem percebeu.

 

Pôster:

 

Ficha Técnica:

Ano: 2017

Duração: 101 min

Gênero: Drama, Romance

Diretor: Naomi Kawase

Elenco: Ayame Misaki, Masatoshi Nagase

 

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Imagens

Avaliação do Filme

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