Por Luciana Ramos
O que te faria questionar seu relacionamento? Qual seria o ponto de não retorno numa dinâmica a dois bem estabelecida, nutrida por anos sem grandes chacoalhões e elevada à última potência na sequência ritualística de afirmação do amor, também conhecida como o casamento moderno? Para Charlie (Robert Pattison) e Emma (Zendaya), a discussão começa quase por acaso, quando eles estão passeando na rua e veem a DJ contratada para a festa usando heroína. Além do julgamento, eles se mostram preocupados de um possível vício atrapalhar uma festa planejada à exaustão para ser perfeita.
O debate é levado para Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim) em uma degustação de menu inflada por vinhos exóticos. Rachel sugere, então, que um casamento de verdade precisa sobreviver ao parceiro saber a pior coisa que o outro já fez. A rodada de confissões termina em Emma, que realmente fala algo chocante. O consternamento é tanto que não só o jantar é interrompido, como leva Charlie a uma espiral de conflitos mentais – meio questionamento, meio loucura, pontuado por inúmeras decisões erradas – que colocam o relacionamento em suspensão.
A premissa é intencionalmente provocadora e, de cara, “O Drama” se mostra um filme ativo, que requer a participação crítica do espectador. A embalagem é pop e bastante palatável: por vezes flertando com a comédia ácida, em especial sobre a ideia de perfeição das festas de casamento, apresenta flashbacks e montagem ágil para dar estofo à ideia principal. Assim, vivenciamos um pouco da adolescência de Emma, ao ponto de suavizar a reação inicial de choque com o fato de que seu plano estava, de fato, muito mais no campo das ideias, reflexo da solidão extrema. Em outro extremo, Charlie efetivamente começa a agir com desequilíbrio, simplesmente incapaz de equalizar o que ouve de sua parceira, embarcando em uma jornada de destruição por vezes engraçadas, outras apenas cringe.
Ademais, há toda a subtrama envolvendo Rachel, cuja persona narcísica bloqueia qualquer filtro de racionalidade sobre a questão. Ao contrário, ela impõe para si o papel de vítima, usando a história da prima como escudo e sendo incapaz de fazer uma autocritica em relação às próprias ações do passado.

Jogando com a perversidade no campo das ideias versus a realidade dos fatos, o roteiro de Kristoffer Borgli pendula entre os pólos para debater, em última instância, o cancelamento na internet. Essencialmente movida pela reação de cada personagem à bomba revelada por Emma no fatídico jantar, ele questiona o ímpeto em apontar uma pessoa como moralmente inadequada sem contexto, crítica ou escuta. Embora em dúvidas, Charlie diz em determinado momento que as ações concretas de Rachel são mais contundentes por terem sido praticadas, mas o filme, embora estimule o destrinchamento desse significado na cabeça do público, aposta na falta de reflexão que culmina em um caos total na cerimônia de casamento – tratada como farsa.
Não faltam críticas, inclusive, à obsessão da sociedade americana como um todo com armas e violência, e o que acontece com indivíduos que crescem cercados de tais referências. Sem se deixar levar muito a sério, “O Drama” entra no hall de filmes provocadores de Borgli, seguindo “Doente de Mim Mesma” (2022), que explora a automutilação por meio de plásticas excessivas para atingir a fama, e “O Homem dos Sonhos” (2023), uma metáfora elaborada sobre o ciclo das redes sociais, da viralização ao cancelamento, que parece ser uma obsessão do diretor. Usando a sátira social como tom, ele oferece um espelho nem sempre confortável da contemporaneidade, mas necessário.

O filme funciona muito por causa do elenco e de como os personagens são delineados: Charlie e Rachel atuam como agentes do caos, escalando situações, enquanto Emma e Mike atuam como as “pessoas sérias”, ferramenta narrativa um tanto clichê, mas extremamente eficaz. Pattinson está completamente solto e sem filtros, atuando na extrema potência (um tanto parecido com Nicolas Cage, seu antecessor, talvez). Zendaya oferece empatia com certa dose de melancolia e sarcasmo, um papel infinitamente mais difícil, mas essencial para a trama, já que é a vulnerabilidade aparente de Emma que ajuda a redimensionar a premissa. Já Alana Haim parece estar se divertindo muito no papel de uma das personagens mais narcisistas da história recente do cinema.
Pondo à prova o conceito de “até que a morte nos separe” antes do sim, Borgli consegue transitar entre gêneros com uma câmera realista e pouco invasiva, refreando-se do ímpeto de excessos estéticos para apresentar seu tema de maneira concisa, mas bastante eficiente. Ao refletir sobre o comportamento prévio e em andamento de cada um dos quatro personagens principais, o público é instigado a questionar o papel que desempenha em uma cultura ávida por cancelar, mas pouco apta para o diálogo.

Ficha Técnica
Ano: 2026
Duração: 1h 45min
Gênero: comédia, drama, romance
Direção: Kristoffer Borgli
Elenco: Zendaya, Robert Pattison, Alana Haim, Mamoudou Athie




