Por Luciana Ramos
Quando foi lançado em 1998, “Da Magia à Sedução” não conquistou os índices imediatos de sucesso – crítica e bilheteria – mas, lentamente, foi conquistando os corações de um público fiel, entregue aos encantos das irmãs Owen. Alimentado pela cultura das videolocadoras, o filme despontou entre os mais reassistidos pela combinação entre magia e irmandade em uma roupagem bastante feminista, estabelecendo a sororidade como solução definitiva contra os relacionamentos tóxicos.
Descartado o último elemento, os demais reaparecem na sequência que finalmente chega às telonas mais de duas décadas depois. “Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” desfaz conclusões bem amarradas da obra antecessora, dentre elas a do feitiço principal. Sim, as mulheres da família Owen estão condenadas a verem todos os homens que amam morrerem de maneira brusca. Após a morte do oficial Gary, Sally (Sandra Bullock) tomou desgosto pela magia, a baniu do seu convívio e fez um feitiço para que suas filhas não se lembrassem dessa parte de sua origem.
Isso leva Kylie (Joey King) a se entregar totalmente para o amor, embora esconda o namorado da mãe por achá-la conservadora demais. Somente quando Gideon (Xolo Maridueña) sofre um grave acidente é que ela descobre o segredo de família e decide, por conta própria, viajar até Londres para pesquisar sobre a primeira bruxa da família e, assim, desfazer a maldição. Sally e Gillian (Nicole Kidman) seguem o seu rastro, assustadas com o potencial destrutivo da magia não regulada de Kylie, e buscam ajuda na figura de um enigmático professor, Ian (Lee Pace), que parece bastante devotado aos estudos da magia.

A escolha de reciclar o tema do primeiro filme é até compreensível, mas se mostra bastante equivocada. Primordialmente, ela desmacha grande parte da construção narrativa anterior e, para isso, preenche as lacunas gritantes do roteiro com explicações que vão de tolas à estapafúrdias. Os diálogos expositivos, repetidos com veemência, parecem querer martelar na cabeça do público os avanços da história, como se não confiasse que ele fosse capaz de acompanhá-la – ou, talvez, preparando-se para um consumo com segunda tela (pecado mortal para quem almeja fazer cinema).
O pior, contudo, é a falta de compreensão acerca dos ingredientes que tornaram o original um fenômeno. A magia dava um charme, uma excentricidade às mulheres Owens, mas era sempre pautada em algo pequeno e palatável. O foco mesmo era a combinação de romance com o amor entre as irmãs, capaz de fazê-las superarem seus próprios limites e colocarem suas vidas em risco.
A sequência decide diminuir o tom desses temas em prol de uma magia chamativa, típica de grandes produções genéricas, cheias de explicações complicadas sobre ascendência que são incapazes de firmar o laço emocional mais básico.

Em meio a uma trama flutuante, Nicole Kidman e Sandra Bullock seguram o filme no carisma, embora a última seja forçada a executar muitas cenas de comédia física – que lembram seus papeis mais recentes (como “A Proposta”), mas parecem ter pouco a ver com a essência de Sally Owens. Elas devidamente seguram seus postos de estrelas da produção, mas as escolhas de roteiro tolhem a construção do mesmo senso de irmandade entre Kylie e Antonia (Maisie Williams, relegada a figurante de luxo). A geração sênior, marcada pelas excêntricas Jet (Dianne Wiest) e Fanny (Stockard Channing) é tratada com respeito, mas também parece ter pouco a fazer.
O deslocamento da trama para Londres é igualmente ineficaz: perde-se o charme contido do interior americano e não se explora nenhum elemento característico que torne a viagem interessante. Nesse contexto, o surgimento de Ian como um personagem um tanto dúbio traz certo frescor, em especial pela química entre Pace e Bullock, mas ele parece inacabado e sofre cortes pela conveniência do roteiro.
“Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor” começa e termina muito bem, apostando no encanto de suas personagens para atiçar a afetividade nostálgica. Fica-se, portanto, um gostinho de que nem tudo foi perdido, mas, diante de tanta superficialidade, é difícil pensar que esse filme resistirá ao tempo tal qual o primeiro.

Ficha Técnica
Ano: 2026
Duração: 2h 10 m
Gênero: comédia, romance, fantasia
Direção: Susanne Bier
Elenco: Sandra Bullock, Nicole Kidman, Joey King, Stockard Channing, Lee Pace, Dianne Wiest, Xolo Maridueña
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