Por Luciana Ramos
O elemento catártico atrelado à experiência de ir ao cinema e assistir a uma história pode vir de uma nova percepção da realidade, da reflexão, do choque, mas também da liberação das tensões pelo puro divertimento. “Voando Alto” explora esse último potencial numa trama despretensiosa, cumprindo o seu objetivo escapista de tornar o espectador mais leve e feliz durante os seus 106 minutos de exibição.
O filme baseia-se na história de Michael “Eddie” Edwards (Taron Egerton), um rapaz que, desde a tenra infância, possuía um sonho: tornar-se atleta olímpico. Porém, a combinação de limitações físicas e cognitivas (apenas respeitosamente implicadas) à falta de talento natural tornaram o seu objetivo praticamente impossível.
Seja por pura determinação ou incapacidade de curvar-se à realidade, Eddie passou a vida a dedicar-se em achar um esporte no qual fosse bom até descobrir, aos 22 anos, que a falta de uma equipe olímpica britânica de salto de esqui poderia oferecer-lhe a oportunidade de ir às Olimpíadas de Inverno de 1988.
Sem pestanejar, ele troca a rotina familiar pelo treino nas pistas alemãs, sob a ajuda um tanto relutante de Bronson Peary (Hugh Jackman). Ciente da sua inferioridade atlética, seu objetivo – e grande trunfo narrativo do longa – é apenas atingir o limite para qualificar sua ida às competições olímpicas, onde possa repetir a façanha de saltar de grandes rampas sem se espatifar no gelo.
Dessa forma, a trama progride costurando previsibilidade com muito bom humor. Elementos narrativos que seriam considerados falhas em outros filmes, como diálogos expositivos, clichês de passagens de treino com músicas motivacionais e excesso de didatismo são suplantados pelo caráter despretensioso do filme.
Aspectos inerentes aos feel good movies, estes são usados para oferecer ao público o entretenimento almejado. Tais ferramentas narrativas também são vistas com bons olhos por conta da conexão emocional facilmente desenvolvida entre espectador e protagonista, devido a sua mistura de profunda inocência e determinação.
Essas características marcantes da personalidade de Eddie dão vazão a construção de passagens hilárias, em especial quando os opostos cômicos (Eddie e Bronson) são contrapostos.
Entretanto, tal trunfo não poderia ser obtido não fosse a excelente atuação de Taron Egerton (“Kingsman: Serviço Secreto”). O jovem ator britânico consegue oferecer uma variada gama de expressões faciais que expõem os sentimentos e percepções do personagem frente às adversidades. Igualmente destacável é a interpretação do australiano Hugh Jackman (“X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”), que combina apurado timing cômico a um profundo carisma.
Visualmente, o longa acerta por relegar as construções visuais mais sofisticadas às cenas envolvendo a prática do esporte. Nelas, closes e movimentos panorâmicos extensos combinam-se para criar a atmosfera de tensão e, consequentemente, de torcida. Já o formalismo visual dos demais planos suaviza a estética, tornando o filme menos over e, assim, palatável.
“Voando Alto” é um daqueles longas que merece ser visto e revisto à exaustão pela sua capacidade de provocar profunda alegria em acompanhar a jornada de um incansável sonhador. Incrivelmente leve, despretensioso e engraçado, é um prato cheio para os fãs de comédia e, em última instância, de cinema.
Ficha técnica
Ano: 2016
Duração: 106 min
Nacionalidade: EUA, Reino Unido, Alemanha
Gênero: biografia, comédia
Elenco: Taron Egerton, Hugh Jackman, Christopher Walken
Diretor: Dexter Fletcher
Trailer:
Imagens: