Por Luciana Ramos
“E o todo-poderoso bate nele e o coloca nas mãos de uma mulher”. Essa frase bíblica, citada mais de uma vez no novo filme de Roman Polanski, “A pele de Vênus”, resume a sua trama e sentido. Ao mesmo tempo afiado e sutil nas demarcações e dominação de gêneros, é um filme que merece ser visto.
Thomas (Mathieu Almaric) teve um dia de cão. Autor e diretor teatral de uma adaptação do polêmico livro de Leopoldo Von Sacher-Masoch, Venus im Pelz, ele não conseguiu achar a sua musa e encaminha-se para fora do teatro quando dá de cara com mais uma aspirante ao papel.
Vanda (Emmanuelle Seigner), molhada, descabelada e com a maquiagem escorrendo, suplica por uma chance de provar que ela é perfeita para o papel. Com roupas vulgares (segundo ela, para combinar com o teor pornô da peça) e fala rude, parece extremamente distante da sofisticação que a personagem implica e, por isso, é automaticamente rechaçada por Thomas. Ela não desiste, impõe a sua presença e o força a assisti-la atuar depois de exaustivas perguntas sobre o texto.
Nesse momento, Thomas é absolutamente surpreendido pela transformação de Vanda: a vulgaridade dá lugar ao requinte e discrição de uma verdadeira dama. A entonação das palavras é suave e apropriada. Além disso, a atriz parece não olhar para o texto, sabe todo ele de cor.
O dramaturgo fica embasbacado: como pode aguem tão sem valor e estúpida (nas suas próprias palavras) desconhecer tanto a personagem que adaptou e, ainda assim, encarná-la com tamanha perfeição?
Confuso, decide que o melhor é seguir adiante e pede a Vanda para continuar. Ele assume o papel masculino e juntos debatem e declamam sobre a estória que deu origem ao termo “sadomasoquismo”.
Oscilando entres essas duas realidades ficcionais construídas dentro de um teatro, mesclam-se textos e personagens. Vanda volta à realidade com a mesma facilidade que encarna a mocinha, sempre questionando as intenções do autor e o propósito da obtenção do prazer através da humilhação.
Com isso, vai paulatinamente tomando não só controle da situação (por ditar a conversa) mas também do dramaturgo. Sem perceber, ele vai sendo subjugado: sua inferioridade é refletida na forma como obedece a atriz durante a leitura da peça e nos intervalos. As tentativas de Thomas de reaver o controle são respondidas com maior austeridade e humilhação, ao que o dramaturgo se submete com confusão e fascínio, até o clímax do filme.
“A pele de Vênus” utiliza a estória do livro de 1870 de Leopold Von Sacher-Masoch como subtexto para tecer um jogo de poder, manipulação e submissão. O dramaturgo desenvolve ao longo do ensaio a mesma relação entre deleite e sofrimento que o protagonista literário, um homem que mesclou paixão e fetiche ao tornar-se escravo de sua musa.
Pautado basicamente no diálogo, “Vênus em pele” depende essencialmente do talento dos seus atores para firmar sua qualidade narrativa.
Mathieu Amalric atua à perfeição como um misto de impaciência, nervosismo e adoração, mas é Emmanuelle Seigner, esposa do diretor, que brilha e domina (literalmente) as cenas. Com segurança e explodindo sensualidade, Seigner conduz a ação dramática de maneira impressionante, mudando linguajar e inflexões a todo momento.
“A pele de Vênus” tem texto extremamente bem trabalhado e sagaz num jogo metalinguístico de sexo e castigo. É uma obra de amor ao teatro e marca um retorno à boa forma do diretor polonês Roman Polanski. Além disso, é uma reafirmação contaste do talento de seus atores. Um verdadeiro deleite.
Ano: 2013
Duração: 96 min
Nacionalidade: França, Polônia
Gênero: drama
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner
Diretor: Roman Polanski
Trailer:
Imagens: