Por Luciana Ramos
Quais componentes determinam o sucesso de um remake? Se juntarmos nomes de peso no elenco, um roteirista consagrado, um diretor cômico bem estabelecido e um tema mordaz como condutor da trama, teremos um bom filme? “Os Roses – Até Que a Morte nos Separe” parece vir para comprovar que existe um elemento intangível, mas vital na criação do que consideramos uma boa obra. Seria o tom, a edição, maior foco? Não sei ao certo, apenas digo com certeza de que esta readaptação falha miseravelmente em se apresentar como algo interessante.
O ponto principal do livro de Warren Adler, escrito em 1981 e primeiramente adaptado ao cinema oito anos depois, era o dinheiro, ou o seu peso dilacerante em uma dinâmica amorosa embalada por tradicionalismo. Paulatinamente, os Roses originais (vividos por Michael Douglas e Kathleen Turner) cedem seus impulsos ao consumo desenfreado de bens que reafirmam o status do casal perante a sociedade, sendo a casa onde habitam o cerne dessa representação. Não à toa, a narrativa da ácida comédia dirigida por Danny De Vito é narrada pelo seu personagem, o de um advogado de divórcio que aconselha um cliente a deixar o rancor de lado e ceder um pouco à ex-esposa, a fim de escapar do trágico fim dos Roses.
O alerta, dado logo ao início, serve para sedimentar a narrativa em tons tragicômicos e, portanto, absurdos – até hoje surpreendentes pela coragem com que o filme explora a toxicidade desse relacionamento. Nas mãos de Tony McNamara, roteirista de “A Favorita”, “Pobres Criaturas” e da ótima série “The Great”, era de se esperar o mesmo nível de acidez, mas seu roteiro parece receoso de ir muito longe, atendo-se a um vai e volta sem fim de desaforos e análises subjetivas (os personagens possuem surpreendente capacidade de mensurarem suas frustrações) que não levam a lugar nenhum.

A dinâmica continua pautada no ressentimento financeiro, dessa vez calcado na ascensão de Ivy (Olivia Colman) como uma chef renomada e queda do seu marido, Theo (Benedict Cumberbatch), como um arquiteto promissor. Ao assumir a criação dos filhos, ele promete se dedicar sem ressentimento à tarefa, mas inevitavelmente falha, abrindo espaço para alfinetadas que adicionam culpa na rotina já extenuante da esposa. Embora pareçam se odiar às vezes, ambos vivem reafirmando para os amigos Barry e Amy – Andy Samberg e Kate McKinnon em personas recicladas de trabalhos anteriores – que o amor é mais forte do que as brigas…até que a disputa final coloca tudo a perder.
Ao contrário do filme dos anos 80, as reclamações, testes amorosos (e sádicos) e outras mesquinharias do remake não concedem muito peso à narrativa pelo simples fato de não escalarem progressivamente; ao contrário, parecem uma partida de tênis monótona em que a bola nunca cai no chão. Há um excesso de polidez nas piadas que retira a ousadia mesmo do insulto mais pesado. Dessa forma, mesmo o carisma e talento de Colman e Cumberbatch não são capazes de alçarem o material narrativo a um patamar satisfatório.
Sem sedimentação suficiente ou desenvolvimento de subtramas e personagens secundários, a catarse planejada para o final soa mais como uma sucessão de gags visuais do que uma conclusão avassaladora. Este receio em levar a provocação ao nível máximo é simbolizada pelo lindo lustre que coroa a sala de jantar – ícone do encerramento da briga no primeiro filme e, aqui, desperdiçado em uma piada referencial. É como se o próprio impulso destrutivo que permeia o livro e o filme original tivessem que ser tolhidos em prol de uma discussão mais equilibrada que, neste caso, fere o potencial cômico do material. Ao fim, a experiência cinematográfica oferece pouca recompensa, mostrando-se mais um exercício opaco de readaptação que parece não ter nada de novo a falar ao público.

Ficha Técnica
Ano: 2025
Duração: 1h 45m
Gênero: comédia
Direção: Jay Roach
Elenco: Olivia Colman, Benedict Cumberbatch, Kate McKinnon, Andy Samberg, Ncuti Gawa, Sunita Mani, Zoe Chao, Jamie Demetriou




