O Oscar é considerado o maior e mais prestigioso prêmio de Hollywood. Seu escopo vai além de atuar na divulgação de obras, que atraem espectadores às salas de cinema: mediante a lista de indicados, a premiação personifica toda a indústria do entretenimento, deixando claro aos olhos do mundo os tipos de produções e profissionais que são valorizados.

 

Esse peso cultural origina um impasse em muitos anos vocalizado pelos artistas que devotam suas vidas ao cinema: o Oscar parece ser incapaz de abraçar as mudanças sociais e políticas que ocorrem nos sets de filmagem, ignorando sistematicamente produções inovadoras. A polêmica em torno da predileção por obras com mesmo molde narrativo, dirigidas por homens brancos e mais velhos em detrimento de outras, mais arriscadas e de caráter independente, levou a Academia a ampliar o escopo da categoria Melhor Filme para dez possíveis candidatos. Em 2016, foi a vez do #Oscarsowhite incomodar profundamente os organizadores, levando a presidente da época, Cheryl Boone Isaacs, a tomar a decisão drástica de ampliar o corpo de votantes, incluindo um número consideravelmente maior de pessoas de cor, mulheres e estrangeiros. Em oposição, membros antigos que há muito não trabalhavam em Hollywood tiveram seus direitos ao voto cassados.

 

Dois anos após a medida, o anúncio da 90ª edição do Oscar tornou claro o novo direcionamento da Academia. Amplo espaço foi concedido a produções menores, que ganharam visibilidade em festivais, como “Me Chame Pelo Seu Nome”, “Projeto Flórida” e “Doentes de Amor”. Abraçou-se também o cinema provocador e que desafia gêneros de Jordan Peele, reconhecido em seu primeiro esforço como diretor por “Corra!”. A sua indicação como Melhor Diretor também marcou a quinta vez que um artista negro concorre nesta categoria, algo similar a jornada de Greta Gerwig, quinta mulher indicada por seu debut diretorial, “Lady Bird: A Hora de Voar”. Em detrimento, nomes de peso como Ridley Scott e Steven Spielberg ficaram de fora da lista. Seus filmes, na verdade, apareceram pontualmente, sendo mal notados.

 

O caráter diversificado foi notado em toda a lista de indicados, possibilitando indicações históricas, como a de Rachel Morrison, primeira mulher a concorrer em Melhor Fotografia, e Dee Rees, primeira mulher negra a disputar em Melhor Roteiro Adaptado, ambas pelo filme “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi”. Este, produzido pela Netflix, embora tenha ficado de fora do prêmio principal, conseguiu quatro indicações que, somadas às categorias de documentário, totalizaram oito para a plataforma de streaming. Essa é uma clara mudança de direcionamento do corpo de votantes, que antes rechaçava seu modelo de negócio (em especial sua escolha de lançar filmes no mesmo dia nos cinemas e no seu canal) e somente levava em consideração seus esforços em categorias de não-ficção.

 

A diretora Dee Rees, indicada pelo roteiro de “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi” com Mary J. Blige, que concorre a Melhor Canção e Melhor Atriz Coadjuvante

 

Nomes mais sedimentados, como John Williams, Meryl Streep e Denzel Washington, foram igualmente reconhecidos por seus trabalhos, batendo recordes nas categorias em que concorrem. Neste sentido, destaca-se a inclusão de Christopher Plummer como Melhor Ator Coadjuvante aos 88 anos (sendo o mais idoso da história no quesito atuação), um sinal de aprovação da indústria a sua rápida escalação no filme “Todo o Dinheiro do Mundo” no lugar de Kevin Spacey, afastado após denúncias de comportamento sexual predatório.

 

O movimento #metoo, que marcou o fim do ano passado ao trazer à tona diversos relatos de assédio sexual, também influenciou nas votações, sendo a mais clara a troca de James Franco por Denzel Washington na categoria Melhor Ator. De fato, o filme escrito, produzido e estrelado por Franco, “O Artista do Desastre”, foi quase esnobado (só é candidato a Melhor Roteiro Adaptado) após cinco pessoas terem acusado ele de usar o seu poder para abusar de potenciais atrizes, uma clara sinalização que esse tipo de conduta não é mais tolerado.

 

A ausência de Harvey Weinstein na premiação desse ano, após afastamento da sua empresa pelas sistemáticas denúncias de assédio sexual em outubro do ano passado, é outro indicativo de mudança no Oscar. Sua incisiva campanha por “Shakespeare Apaixonado” tornou-se um caso de estudo em Hollywood e, rapidamente, o destino das estatuetas douradas tornou-se um jogo marcado de influências (mais notadamente, a sua, que ano após ano angariava estatuetas para seus atores).

 

O fim da sua era, por assim dizer, abre espaço para a imprevisibilidade, sempre mais interessante. Sua saída ainda permite a possibilidade de cada filme ser honrado pelo seu brilhantismo em uma área – em detrimento da escolha de um favorito que leva todos os prêmios. Ainda há um longo caminho pela frente (como a inclusão mais expressiva de atores latinos nas categorias principais), mas o Oscar deste ano parece apontar para novos rumos do cinema.

 

 

 

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