Quando o comediante Chris Rock foi confirmado como apresentador da 88ª edição do Oscar, ele não tinha ideia que iria estar no epicentro de uma polêmica racial.

 

Logo após o anúncio dos indicados à premiação, no dia 12 de janeiro, o diretor Spike Lee – que recebeu uma estatueta honorária pela sua contribuição ao cinema no ano passado – usou as mídias sociais para expressar o seu descontentamento com a falta de diversidade nas categorias, não sem fundamento: todos os 20 atores indicados nesse ano são brancos, repetindo o fenômeno de 2015. Diante disso, ele questionou se o fato de Idris Elba e Will Smith terem sido esnobados tinha a ver com a performance ou era puramente um reflexo do racismo presente em Hollywood.

A queixa ganhou logo a aderência de Jada Pinket Smith, mulher de Will, e Michael Moore, entre outros artistas, que prometeram boicotar a premiação. A repercussão midiática, por sua vez, espalhou a #oscarsowhite na internet, levando a Presidente da Academia de Ciências Cinematográficas Cheryl Boone Isaacs e até o Presidente Obama a se pronunciarem.

O debate fundamenta-se na extrema falta de reconhecimento de atores negros ao longo 88 anos de premiação: desde 1940, quando Hattie McDaniel ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “E o Vento Levou…”, somente outros 12 atores subiram ao palco. Vivendo em uma época de intolerância, McDaniel teve que ter sua entrada no Hotel Ambassador (que tinha política segregacionista) liberada pelo produtor David O. Selznick, sentar-se em uma mesa separada e tolerar ser mencionada como “a empregada” 74 vezes.

 

 

Ainda que o cenário tenha melhorado profundamente para as pessoas de cor, cabe ressaltar que as atrizes Mo’Nique, Octavia Spencer e Lupita Nyong’o, últimas a serem premiadas, foram coroadas por interpretarem respectivamente uma mãe abusiva, uma empregada doméstica e uma escrava, papéis que não deixam de representar estereótipos raciais.

A falta de representatividade da Academia – cujos votantes são 87% brancos e 58% do sexo masculino – é um reflexo de um problema muito maior: o modo de funcionamento da indústria cinematográfica. Nesse sentido, talvez a declaração mais pertinente tenha sido a da atriz Viola Davis, indicada ao prêmio de Melhor Atriz por “Histórias Cruzadas”, que enfatizou a falta de oportunidades dadas a atores negros em filmes de grande porte.

Diante do debate inflamado e da declaração da Presidente da Academia, que prometeu mudanças radicais no critério de votação, o comediante Chris Rock declarou que jogou fora tudo que havia escrito e começou a trabalhar em outro material.

 

Conhecido por abordar o problema racial dos Estados Unidos nos seus stand-ups e filmes, Rock com certeza irá mexer na ferida do Oscar. A real pergunta é: de que forma? Questionado sobre ter sido convidado para ser apresentador, ele brincou: “Eu só estou aqui porque a Ellen não quis fazer o show e eu tenho certeza que perguntaram a ela tipo oito vezes”.

Enquanto o ator da franquia “Velozes e Furiosos” Tyrese Gibson criticou a sua decisão de não abandonar o trabalho, outros a apoiaram, como Marlon Wayans (de “As Branquelas” e “Inatividade Paranormal”) que, diante do perfil provocador de Rock, declarou: “Não há pessoa melhor para falar sobre isso do que ele”.

Hoje, às 22 horas, o debate sobre a falta de representatividade da indústria cinematográfica subirá ao palco da maior premiação do cinema na boca do comediante Chris Rock, o que não deixa de ser um avanço no debate. Ainda assim, mudanças profundas são requeridas para que profissionais de todos os gêneros e raças possuam a oportunidade de serem valorizados pelos seus talentos.

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