Adaptado a partir do livro do jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Carlos Heitor Cony, “Quase Memória”, novo filme de Ruy Guerra, conta uma história que transita entre o biográfico e o fantasioso. Nele, Carlos (Tony Ramos) acha um pacote há muito esquecido, enviado a ele por seu pai. Tal fato desencadeia uma experiência transcendental no personagem, que encontra com seu eu do passado e, juntos, relembram histórias do genitor. A equipe do Mais que Cinema participou da coletiva de imprensa realizada após a exibição do longa,  que contou com a participação de Ruy, Tony e a produtora Janaina Guerra.

 

Adaptação da Obra

A ideia de transpor a história de Cony para um filme tem mais de 25 anos. Por uma série de fatores a produção se postergou ao longo das décadas, mas o imortal sempre deixou claro a vontade de que Ruy Guerra adaptasse seu livro para as telonas. Infelizmente, Cony teve seu estado de saúde agravado quando as filmagens finalmente começaram e veio a falecer antes do lançamento do título. Durante o festival de cinema do Rio, familiares do jornalista estiveram presentes na primeira exibição do longa e se mostram emocionados com o resultado final.

Em seu trabalho de roteirização, Ruy Guerra, Bruno Laet e Diogo Oliveira fizeram algumas modificações importantes para dar cadência ao título. “Quase Memória” se mostra fiel à obra do escritor nos flashbacks. Já as cenas no presente são uma criação da trinca de roteiristas. O encontro dos dois Carlos e suas interações não existem no livro e, por isso, podem causar alguma estranheza a quem é fã da publicação. Entretanto, ao observarmos o todo, tal artifício se mostra efetivo e contribui para a conexão entre as reminiscências do protagonista.

Durante a coletiva, Ruy Guerra revelou ainda que, por questões financeiras, diversas partes do filme tiveram que ser repensadas. O livro de Cony possui memórias muito ricas visualmente, que datam do período imperial do Rio de Janeiro. Contudo, reproduzir em cena tais situações demandaria uma verba maior do que a disponível. Dessa forma, o diretor utilizou-se de recursos criativos para mostrar o passado e acabou por cortar alguns fatos que necessitavam de uma produção mais elaborada.

 

 

Atuação e processo criativo

 Sempre de maneira positiva, Tony Ramos contribuiu muito para o diálogo com os jornalistas e revelou detalhes de seu processo de preparação para entrar no personagem. O ator conta que, como Carlos era um ser introspectivo e alucinado, era preciso realizar um ritual para entrar em sintonia com ele. Em geral, Tony chegava cedo aos estúdios, se arrumava e ficava quieto no cenário, enquanto a equipe de som e ambientação compunham o ambiente. Por vezes, ele se camuflava com o cenário, de tão tranquilo e silencioso.

Ao longo do bate-papo, Ramos demonstrou ainda um enorme orgulho em participar da obra do renomado diretor e ressaltou a importância do lançamento do filme diante do cenário nacional desfavorável. Em certo momento, ele foi questionado sobre o que falaria ao seu eu do passado, caso tivesse a oportunidade de viver algo semelhante a seu personagem. Frente de tal pergunta, o ator foi categórico: não possuía nenhuma vontade de voltar no tempo, mas se isso acontecesse, contaria sua trajetória ao pequeno Tony e perguntaria se este ficara feliz com ela.

Por fim, o astro global compartilhou duas das diversas reflexões que o filme lhe trouxe. A primeira diz respeito à falta de memória. Por esta ser uma qualidade essencial para sua profissão, Tony se mostrou preocupado com a questão, mas de maneira bem humorada se afirmou lúcido e descartou tal possibilidade para seu futuro. A segunda é mais profunda e está relacionada com a situação vivida por Carlos. Graças aos delírios do personagem, o ator soube dar mais valor aos silêncios e compreendeu intensamente como os males da mente podem afetar a vida na velhice.

 

 

Civilidade em cena

Levando em consideração o cenário político atual, perguntas relacionadas às recentes decisões judiciais foram levantadas. Diante delas, Ruy Guerra se mostrou incisivo quanto à sua posição e crenças de esquerda. Já Tony, em tom apaziguador, ressaltou a falta de civilidade que existe na população hoje, que não compreende nem respeita a opinião do outro.

Porém, se no Brasil vemos tal intolerância, durante a coletiva o clima foi de admiração e respeito. A sensação geral transmitida pelo longa reflete a necessidade de preservação da memória e a importância do autoconhecimento. Como recompensa final, o cinema ganha uma nova obra deste excepcional diretor, que presenteia a sétima arte com seu estilo de arte.

 

 

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