Por Luciana Ramos

 

O cinema cria ou adapta símbolos, concedendo-lhes sedimentação visual no imaginário popular. Prova disso pode ser encontrada na franquia Bond que, como tantas outras, já possui seu arsenal de peculiaridades: a elegância do agente britânico, que costumeiramente ajeita seu terno após situações delicadas; uma sequência de abertura embalada ao som de algum cantor em voga que enumera os temas do título em questão; a vodca martini mexida, não batida; o modo com que ele se apresenta; as numerosas – e quase sempre descartáveis – Bond Girls.

Essa construção de pequenas simbologias, afinadas ao longo do tempo, torna a missão de atualizar qualquer franquia incrivelmente difícil, já que esta prescinde da disposição dos seus fãs (incluindo os puristas) para colar. Porém, mesmo diante da irresistível tentação do mash up em doses sucessivas, a produtora Barbara Broccoli e seu time da Eon Productions resolveram arriscar ao convidarem Daniel Craig para assumir o famoso papel.

O desinteresse expresso do ator em fazer “mais do mesmo” se casou muito bem com a onda de anti-heróis amargurados que invadiu o cinema pós-Jason Bourne. Da combinação, nasceu um James Bond mais físico, violento e, quase paradoxalmente, vulnerável. Substituindo o ar cool de quem não se deixa abalar por inúmeras feridas emocionais que definem sua extrema desconfiança, Craig explorou as nuances de um homem cuja jornada o desafia a se apaixonar, perdoar e expor em uma serialização de cinco filmes, que chega ao final com “007 – Sem Tempo Para Morrer”.

O longa apresenta um James aposentado, vivendo um amor com Madeleine Swann (Léa Seydoux). As tentativas de construírem algo juntos são desafiadas por constantes acenos ao passado de cada um dos dois, que parece assombrá-los. Ao tentar lidar com isso, eles acabam se separando. Cinco anos depois, Bond parece viver sem muito propósito na Jamaica até que seu amigo da CIA, Felix Leiter (Jeffrey Wright), o avisa sobre movimentações da rede criminosa Spectre em Cuba. Não obstante, ele descobre que os movimentos de Ernst Stavros Blofeld (Christoph Waltz) estão conectados a uma ameaça ainda maior, capitaneada pelo excêntrico Safin (Rami Malek). Compelido a agir, James retorna à MI6 para descobrir os pormenores da nova arma e ajudar a destrui-la antes que seja tarde demais.

As inúmeras camadas da história desenrolam-se ao longo de mais de duas horas e meia de projeção, um recorde até mesmo para a franquia. Ao contrário do título, o tempo é distendido ao máximo a fim de dar a oportunidade ao personagem de reencontrar todas as pessoas essenciais à sua jornada, formar novas alianças e refletir sobre erros e acertos do passado. Esta preocupação denota um respeito ao trabalho de Craig, uma espécie de homenagem fílmica que é coroada com o ápice emocional da sua jornada, embalada por muita explosão, melodrama e poucos toques de humor.

A atípica dureza da trama é respaldada pela serialização da narrativa, já que cada filme se mantém obrigado a partir de um ponto acima de onde terminou o anterior. As esparsas tiradas sarcásticas e gags visuais são insuficientes para fornecer o conforto do molde clássico, mas algumas outras adequações da franquia apaziguam essa sensação.

A nível mais essencial, é muito bem-vindo o novo tratamento dado às Bond Girls. Antes definidas no espectro ingênua-femme fatale, elas ganham mais substância e inteligência em “Sem Tempo Para Morrer”. Em participação pequena, a agente cubana Paloma (Ana de Armas) mostra-se qualificada, carismática e levemente insincera, tal como o agente britânico. O flerte entre os dois é breve, não parece forçado e é pautado no respeito e não, ao contrário de inúmeros filmes passados, na sensação de superioridade (machista) dele.

Já Nomi (Lashana Lynch), designada como 007 durante a sua aposentadoria, possui o mesmo arsenal de qualidades que James, além de compartilhar sua astúcia e desconfiança nata. O desenho desta personagem é interessante pois serve de contraponto ao protagonista, caminhando na linha tênue entre parceria e antagonismo, além de acenar para o nicho de fãs que demanda atualizações mais radicais na franquia. Ao mesmo tempo, sua resignação ao local de coadjuvante reitera a verve do personagem de Ian Fleming, que deve permanecer mais ou menos fiel à sua origem nos próximos filmes, quando o mais novo James Bond for apresentado.

Extensa e focada no aspecto emocional, a narrativa centra-se nos elementos pessoais da vida do protagonista – ainda mais do que em “Skyfall”, visto que relega o panorama geopolítico a insinuações feitas vez ou outra por M (Ralph Fiennes) ou Moneypenny (Naomie Harris). Assim, ainda que a arma em questão seja avassaladora, ela é submetida às vontades e caprichos individuais de vingança do seu realizador, Safin, retraindo, no processo, seu potencial. Esta é a maior falha do sedutor roteiro escrito por Neal Purvis, Robert Wade, Phoebe Waller-Bridge e Cary Joji Fukunaga, pois desemboca em um terceiro ato não tão interessante quanto as fases anteriores do filme – embora naturalmente contenha a sua parte mais emotiva.

Transitando entre tradição e inovação, deve-se pontuar que o desequilíbrio desta escolha é reflexo também de olhos mal-acostumados à tantas mudanças. Sabendo disso, o time de roteiristas faz questão de acenar para ícones e obras anteriores, mantendo a vibe Bond acesa na referência à ilha remota de Dr. No, a bizarrice de um olho biônico ou mesmo às funcionalidades de carros, aviões e gadgets.

As passagens de ação são filmadas com maestria com Fukunaga, que parece ter uma sensibilidade extra neste campo, e Hans Zimmer realiza uma interessantíssima releitura da trilha sonora original, explorando a densidade dos elementos de corda em passagens importantes. No âmago da produção, concedendo todo o devido peso à despedida desta versão do agente da MI6, está o afinado elenco, encabeçado por um Daniel Craig que parece feliz em trajar-se do personagem mais uma vez, transmitindo equilibradas doses de vulnerabilidade e destreza física.

“007 – Sem Tempo Para Morrer” é uma despedida ambiciosa para um Bond forjado em tempos de mudanças. Embora falho – como a grande maioria dos filmes – ele consegue fazer jus a uma jornada construída ao longo de quinze anos e cinco filmes, deixando no espectador a ótima sensação de recompensa ao seu término – além de uma leve saudade do ator que proporcionou tantas atualizações a um personagem tão querido e icônico.  

Ficha Técnica

Ano: 2021

Duração: 168 min

Gênero: ação, aventura, drama

Direção: Cary Joji Fukunaga

Elenco: Daniel Craig, Ralph Fiennes, Ben Whishaw, Naomie Harris, Ana de Armas, Lashana Lynch, Léa Seydoux, Christoph Waltz, Rami Malek, Jeffrey Wright

Avaliação do Filme

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