Por Luciana Ramos

 

A história recente do cinema alemão demonstra uma vontade em revisitar criticamente os eventos mais marcantes do país, com especial apreço em relatar diferentes facetas dos horrores provocados pela ascensão do Nazismo e consequente Segunda Guerra Mundial. Tal investimento artístico funciona mais como um exercício de autorreflexão do que um mero retrato de eventos relevantes.

As decorrentes obras são extremamente abrangentes em abordagem, tendo como elo comum a não tentativa de expurgar o sentimento de responsabilidades pelos atos da nação. Do interessante “Lore” até “Phoenix”, passando por “Labirinto de Mentiras”, entre outras obras, há a explanação da mentalidade vigente na época, suas consequências diretas, a vergonhosa adesão por parte da população à ideologia ao uso da desfiguração de uma sobrevivente como metáfora para a Alemanha pós-Guerra.

O longa “13 Minutos”, novo filme de Oliver Hirschbiegel (“A Queda: As Últimas Horas de Hitler”) traz à tona um personagem desconhecido da história mas cuja ambição, caso concretizada, mudaria radicalmente o rumo da história mundial. Trata-se de Georg Elser (Christian Friedel), um carpinteiro e aspirante a músico que, em 1939, elaborou um plano para matar Hitler.

 

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Sua indignação provém da humilhação e intimidação sofrida por parte da sua vila devido ao estabelecimento do Partido Nazista no poder, sentimento enaltecido pela sua simpatia à causa comunista. Decide, então, usar seus conhecimentos agregados nos diferentes ofícios que praticou para construir uma bomba-relógio, colocado acima de um palanque onde o ditador discursaria. Porém, em 08 de novembro de 1939, o artefato explodiu exatos 13 minutos depois de Hitler deixar o local, matando outras oito pessoas.

O longa acompanha sua detenção e decorrente investigação do caso, comandada por um agente da perícia criminal e o chefe da Gestapo. A incredulidade é dividida não só pelos dois mas também pela alta patente do Partido: todos duvidam das motivações de um homem simples e sem filiações em arquitetar um plano tão bem feito, assim como na sua capacidade de concretizá-lo. De qualquer forma, há um desejo comum em torna-lo um exemplo para eventuais transgressores.

 

Entrelaçados a esses acontecimentos dispõem-se sequências de flashback onde Georg recorda-se da felicidade mundana do passado, a ocupação da sua vila pela ideologia de extrema direita e o relacionamento com Elsa (Katharina Schüttler), uma mulher casada.

O longa revela-se interessante ao introduzir um novo personagem histórico embebido de humanidade e coragem, que cruza os limites da sua moral em prol da convicção de que fazer justiça com as próprias mãos é a única saída para o povo alemão.

O tratamento narrativo concedido ao tema, no entanto, deixa a desejar em termos de profundidade, já que dispensa maiores reflexões sobre o objeto de abordagem. Além do caráter excessivamente cordial das cenas de investigação, o que as tornam pouco críveis, há um investimento desproporcional concedido a outra faceta da narrativa: o romance entre o protagonista e Elsa. Este, por sua vez, também não escapa do mal desenvolvimento, em especial no concernente ao conflito criado entre os dois e o marido violento dela.

Por tais motivos, no panorama de obras sobre o tema, “13 minutos” relega-se a um patamar inferior em termos de qualidade artística, dada a sua incapacidade de trabalhar com equidade os elementos propostos e, assim, inferir maior simbolismo à trama. Em contraponto, é louvável por apresentar um personagem idealista que tomou para si a missão de parar os horrores da Guerra.

 

*Essa crítica faz parte da cobertura da 40ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo

 

Ficha técnica Cartaz_Alta


Ano:
 2015

Duração: 116 min

Nacionalidade: Alemanha

Gênero: biografia, drama, guerra

Elenco: Christian Friedel, Katharina Schüttler, Burghart Klaußner

Diretor: Oliver Hirschbiegel

 

 

Trailer:

 

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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