Por Luciana Ramos

*Contém spoilers*

Consternada, Behnaz Jafari assiste repetidamente ao vídeo enviado por uma garota que não conhece. Neste, a jovem Marziyeh lamenta o veto da sua família aos seus estudos, clama que ninguém a entende ou respeita os seus anseios e, por isso, diz não ter motivos para viver. A sua admiração por Jafari, conhecida atriz do Irã, a levou a tentar contato como um último recurso: se talvez uma pessoa tão estimada falasse com seus pais, estes mudariam de ideia. Sua desesperança, no entanto, parece vencer ao final.

Duvidando da veracidade do depoimento, Behnaz convenceu seu amigo, o cineasta Jafar Panahi, a ir até o vilarejo da garota a sua procura. O caminho é tortuoso, marcado por uma via única que divide os que chegam e os que partem e exige o diálogo entre as partes para seu funcionamento. Esta abertura forma a primeira impressão do local, sedimentada pela solicitude e alegria com que os habitantes recebem os artistas. O clima muda subitamente quando eles revelam o motivo de estarem ali, trazendo à tona o conservadorismo e o preconceito escondidos sob o véu de cordialidade.

Esta ambiguidade marca a narrativa de “3 Faces”, moldada a partir das experiências de Jafar e Behnaz em uma terra mais inóspita e conectada com tradições do que a capital Teerã: no meio do trajeto, encontram uma idosa que espera a morte na cova que foi forçada a cavar; nos relatos de um senhor local, ouvem uma curiosa crença que relaciona o prepúcio à masculinidade – e que expõe a negativa veemente aos que destoam da heteronormatividade.

A junção de observações do vilarejo leva à construção de um forte senso de comunidade, que seria extremamente positivo se não exigisse dos seus moradores a irrestrita conformidade às impositivas regras locais. Exatamente por destoar disso, Marziyeh foi rechaçada, taxada como “sem juízo” e seu sumiço foi respondido com escárnio, raiva e ampla desaprovação.

Não faltam discursos de reprovação à inutilidade do ofício criativo, despejados exatamente aos artistas que se dispuseram a ir procurá-la. Ao contrapor este desprezo com a ampla admiração pelas figuras de Jafari e Panahi, presentes nas televisões das suas casas, o diretor constrói mais um ponto de incongruência social, reforçando o seu caráter paradoxal e, assim, aprofundando a narrativa.

Assim como Abbas Kiarostami, Jafar Panahi pôde construir uma carreira cinematográfica a partir da difusão e barateamento dos equipamentos digitais, o que possibilitou a criação de obras fora da indústria criativa iraniana – e do seu controle. O conteúdo crítico de seus longas o levou à perseguição e posterior encarceramento: atualmente, ele se encontra impedido de deixar o Irã. Seus filmes, desde então, contam com subterfúgios e apoio internacional (como de Thierry Frèmaux, organizador do Festival de Cannes) para serem feitos.

Se a repressão que vive o tolhe de direitos essenciais, também o alimenta, algo observado no paralelo entre elementos fundamentais da sua vida e da narrativa de “3 Faces”. Curiosamente, esta é ligeiramente apresentada como ideia no documentário “Isto Não é um Filme”, que acompanhou sua rotina enquanto esperava decisão judicial.

O caráter metalinguístico é reforçado pelo modelo narrativo que usa em todas as suas produções: Panahi aparece como um personagem, uma versão de si que guia o espectador, observando os acontecimentos se revelarem a sua volta, o que torna a experiência de assistir às suas obras sem dúvida mais interessante.

O roteiro aparentemente simples e direto de “3 Faces” esconde elaborações profundas sobre elementos vitais da sociedade iraniana, profundamente arraigada às tradições e os preconceitos adjacentes. Ao final, Panahi escolhe olhar de maneira positiva para o futuro do seu país, sintetizando-o com uma metáfora visual: através dos vidros quebrados do carro, a câmera capta Behnaz e Marziyeh caminhando em direção à saída do vilarejo. O caminho continua sinuoso e estreito, mas juntas, elas o trilharão.

*Filme assistido como parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema Internacional de SP

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 104 min

Gênero: drama

Direção: Jafar Panahi

Elenco: Jafar Panahi, Behnaz Jafari, Marziyeh Rezaei

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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