Por Luciana Ramos

Marie-Francine (Valérie Lemercier) é uma mulher de 50 anos que recebe uma sucessão de notícias desagradáveis, o que a leva ao desespero. Primeiro, seu marido decide que deve revelar no seu ambiente de trabalho a paixão por uma mulher de 32 anos e, assim, pedir o divórcio. Infeliz, ela volta-se às pesquisas biológicas, mas por pouco tempo: a presença de um componente tóxico a faz perder seu emprego. Por fim, uma confusão com o aluguel de um quarto a força a mudar-se para a casa dos pais.

Estes a recebem sem muito entusiasmo. Sem pretenderem abrir mão do conforto, a instalam no sofá da sala, chamando constante atenção para sua situação aterradora e, como de se esperar, opinando demasiadamente sobre sua vida. Marie-Francine enxerga-se no fundo do poço e, apesar das tentativas de retomar o controle, não consegue outra oportunidade de trabalho, o que a empurra mais um degrau abaixo na sua escala de autoestima: ela aceita tornar-se a vendedora da loja de cigarros eletrônicos de seus pais, onde passa os dias miseravelmente até conhecer Miguel (Patrick Timsit).

 

 

Ao recebê-lo com o despojamento de quem está pouco preocupada em vender, ela chama a atenção do chef que trabalha no restaurante ao lado. Para agradá-la, ele passa a preparar pratos sofisticados dia após dia e, diante da confissão da mulher sobre a sua situação, ele esconde o fato de que está vivendo os mesmos percalços.

O relacionamento dos dois progride naturalmente, contornado por pequenos segredos que evitam o embaraço e a mania de Annick (Hélène Vicent) e Pierrick (Philippe Laudenbach) em meter-se na vida da filha, como se esta fosse uma adolescente.  Sem maiores pretensões, o roteiro mostra-se bastante eficiente, tanto na criação de situações hilárias, que exploram os dotes cômicos dos atores – em especial o porte físico de Lemercier – e o caráter humano de seus personagens.

O filme revela-se uma grata surpresa ao longo de sua projeção por ir além da busca fácil pelas risadas, utilizando o humor como ferramenta par criação de situações universais, facilmente identificáveis – que, aqui, são condensadas para maior efeito narrativo. Embora vivendo em momentos extraordinárias, todos os personagens são bem construídos, de forma a cativar pelas suas peculiaridades, falhas e boas intenções, que nem sempre se refletem em suas ações.

 

 

Embora o romance seja o ponto focal do longa, é na relação dos filhos Marie-Francine e Miguel com seus respectivos pais que mora o diferencial da produção, por remeter de forma absurda a um tipo de interação que nunca é completamente madura e racional, já que reflete a percepção que um tem do papel do outro em sua vida.

Os grandes destaques ficam por conta das atuações de Hélène Vicent, ótima como a mãe mandona que esconde seus próprios segredos e Philippe Laudenbach, que imprime credibilidade na performance de pai incomodado pela perturbação de ter uma filha de volta ao lar. Porém, é no papel da protagonista que Valérie Lemercier (também responsável pelo roteiro e direção) consegue brilhar, concedendo dignidade a uma personagem que parece ter perdido o rumo, unindo leveza, carisma e o talento de quem sabe exprimir o máximo de comédia de cada fala.

Os noventa minutos de projeção de “50 São os Novos 30” passam correndo e, apesar de estruturalmente simples, o filme impressiona pela sua capacidade de divertir enquanto cria identificação com o espectador que, por sua vez, vê-se torcendo pelo sucesso de Marie-Francine.

 

 

*Esse texto faz parte da cobertura do Festival Varilux de Cinema Francês 2018

 

Pôster

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica

 

Ano: 2017

Duração: 95 min

Gênero: comédia

Direção: Valérie Lemercier

Elenco: Valérie Lemercier, Patrick Timsit, Hélène Vicent

 

Trailer:

 

 

Imagens:

 

 

 

Avaliação do Filme

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