Em 1982, Alice Walker lançou um romance poderoso, que transita pela vida de muitos na Geórgia do início do século XX para discorrer sobre a existência negra em suas deficiências e potências. O foco é Cellie Harris, uma mulher pouco letrada e sortuda que possui uma paixão no mundo, a sua irmã Nettie. Quando esta é arrancada dos seus braços pelo marido abusivo e violento, Cellie adota o resignado papel de espera – ela desconhece outras opções – se mune de leitura e, pouco a pouco, vai se desvencilhando da opressão.

É um processo vagaroso, pouco consciente e pautado na sua interação com outras pessoas, como Sofia e Shug Avery, uma mulher “da vida” que é endeusada pelo marido de Cellie, Mister Albert (o tratamento de Mister é para a esposa, o seu nome, para os demais). A complexidade desse relacionamento, em especial como elas conseguem se reconhecer e suprir seus vazios uma na outra, é o grande propulsor da transformação da protagonista.

Aclamado desde o lançamento, “A Cor Púrpura” ganhou um Pullitzer (Walker se tornou a primeira mulher negra a ter a honraria) e uma adaptação para o cinema nas mãos de Steven Spielberg em 1985. Se por um lado o filme conseguiu traduzir o escopo grandioso na tela sem perder de vista o ponto principal da trama – o elo de Cellie e Nettie – por outro é criticado pelo tom hollywoodiano, fantasioso e um pouco apaziguador.

Seguiu-se uma tradução da história para a Broadway em 2015, que estreou com críticas mistas, mas fez sucesso de público. Nesse ciclo de reaproveitamentos, surgiu a ideia de adaptar o musical inspirado no filme inspirado no livro para o cinema mais uma vez.

Esta nova versão abraça deliberadamente o musical, não buscando atenuar as entradas das canções, como de costume. Os números são grandiosos, coreografados e pouco naturalistas. O recurso nesse caso não é utilizado para mostrar elipses temporais ou avançar algum ponto narrativo: quando a música toca, tudo para e os atores dançam e cantam seus sentimentos, apenas.

É uma escolha em voga com o teatro, algo que também se reflete na construção cenográfica e fotografia. Muito longe do naturalismo, os enquadramentos são dramáticos, pontuados por feixes de luz e tonalidades sépia que definem a produção. Ainda que explorados por planos mais abertos e fluidos, os espaços são preferencialmente explorados por um ou dois pontos em cada cena – foca-se no ator e sua interação com o ambiente, sem prestar-se muita atenção aos demais elementos cênicos.

A teatralidade é bastante sentida nas interações e interpretações, sem prejuízo de valor. É uma escolha cinematográfica que, nesse caso, reduz um pouco o apelo da obra no público: o espectador entusiasta de musicais se deliciará; os demais poderão observar a obra com uma certa distância, cavando na memória uma experiência mais feliz com a versão de Spielberg.

Assistir os dois filmes em conjunto traz inegáveis comparações, que precisam ser pontuadas. O longa de 85 tem um cuidado narrativo que não é visto no remake. São pequenas costuras que pontuam os fatos ou comportamentos dos personagens: o ganho progressivo de autonomia de Cellie nas passagens em que ela se concentra em ler cartas (e, assim, passar a sonhar com um mundo fora da fazenda), o modo com que a personagem resiste a Shug de início, sentindo-se feia em comparação e, progressivamente, começa a ansiar pelas suas visitas; o relacionamento de Albert com seu pai e filho, insinuando que os três são fracos por se deixarem moldar a ideais deturpados de masculinidade. Em especial, sente-se falta da cena em que Mrs. Miller leva Sofia para visitar a família no dia de Ação de Graças, que exemplifica a crueldade do racismo mascarado de boa vontade.  

Sem esses pequenos cuidados, as cenas assumem tom mais direto e menos sutil. Progressivamente, o filme vai deixando de lado aspectos importantes da história de Walker, como o abuso sofrido pela protagonista nas mãos do pai (apenas implicado) e assumindo tonalidade mais superficial.

Trata-se, portanto, de um musical grandioso, leve e agradável, pautando sua relevância na forma da mensagem geral da obra. Nesse sentido, há uma belíssima cena final que resume a jornada dos personagens e a importância de contar e recontar essas histórias no cinema. Neste caso, soma-se ao filme em si uma nota de bastidores: foi Oprah Winfrey, que atuou na primeira versão, a pessoa a correr atrás da nova adaptação, não só produzindo como conseguindo financiamento de um grande estúdio, a Warner Bros., para criar um filme que enaltecesse talentos negros na frente e atrás das câmeras.

Em um modelo de negócios tão comprimido, é um esforço notável e no caminho certo – cujo sucesso pode implicar em bem-vindas replicações. “A Cor Púrpura” pode não ser a melhor ou mais detalhada tradução do romance de Alice Walker, mas é um musical muito bem dirigido e produzido, que bastante espaço para o grande elenco brilhar. Taraji P. Henson, Fantasia Barrino, Danielle Brooks e Colman Domingo por si só já merecem o ingresso.

Ficha Técnica

Ano: 2023

Duração: 2h 21m

Gênero: musical, drama

Direção: Blitz Bazawule

Elenco: Fantasia Barrino, Taraji P. Henson, Danielle Brooks, Colman Domingo, Corey Hawkins, Halle Bailey, Phylicia Pearl Mpasi

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