Por Luciana Ramos

 

Edith Pretty (a sempre ótima Carey Mulligan) havia comprado a propriedade de Sutton Hoo com o marido por compartilharem o senso aventureiro e a curiosidade em saber o que os pequenos montes de terra nos arredores da habitação podiam esconder. Após o falecimento dele, no entanto, os planos foram postergados até que, com a iminência da Segunda Guerra Mundial, a Sra. Pretty decide agir a fim de encontrar – e preservar – os tesouros que seu pressentimento dizia estarem submersos.

Para isso, contrata Basil Brown (Ralph Fiennes), um escavador competente, embora arredio aos floreios e arrogância dos acadêmicos que o cercam. Com as próprias mãos e pouca ajuda, ele cava os montes até descobrir o esqueleto de um navio, enterrado como túmulo de um nobre ou guerreiro importante.

Obviamente, com o achado vem os falcões, os tais acadêmicos que provocam arrepios ao Sr. Brown, que desejam tomar a posse – e os louros – da descoberta. O jogo de forças, sendo a Sra. Pretty uma player importante pelo fato de ter dinheiro e influência, revela um pouco o modo como a construção da história funciona: quem a escreve, quem é creditado e, mais importante, quais são as mensagens perpetuadas por povos que há muito habitaram o planeta.

A última discussão é o cerne de “A Escavação”, baseado em fatos. Esta pauta-se a partir da análise da importância dos objetos na construção de um entendimento cultural sobre as civilizações. Como a própria Edith reflete, muito após os corpos esvaecerem-se, são os objetos que descreverão uma época, seus costumes e hábitos, a classe e importância social do indivíduo estudado, entre inúmeras outras aferições. Portanto, são estes pequenos artefatos unidos que comporão a teia da memória, elemento fundamental para perpetuação de um povo – afinal, mesmo após sua extinção, a marca da sua existência permanece gravada no solo.

Esta compreensão vai muito além do local de escavação: está também nos aviões que demarcam o tempo histórico do filme e lembram os personagens da finitude da vida ou mesmo nas fotografias espalhadas pela mesa que servem como registro. Paulatinamente, o roteiro de Moira Buffini e John Preston revelam suas sutis camadas de reflexão embaladas em uma narrativa simples e agradável, embora não escape do uso de clichês nas subtramas, um modo fácil de expandir o panorama social da época.

O único fator que atua em oposição à fluidez da experiência é a excessiva sisudez do filme, que parece querer se levar a sério para que o espectador possa fazer o mesmo. Além da completa ausência de humor, há a ausência de cores, já que tanto a fotografia quanto o figurino trabalham quase exclusivamente com tons terrosos. Embora haja um significado interessante para a escolha – a aproximação dos personagens à terra reitera o fato de que dela vieram e para onde retornaram décadas depois – a seriedade visual acaba tornando o produto fílmico um pouco monótono.

Porém, a evolução da escavação é atraente o suficiente para reter o interesse, que é potencializado pelo talento da dupla Mulligan e Fiennes. Ao se aproximar do final, o longa de Simon Stone lança-se à construção de mensagens edificantes, com êxito. Bem escrito, dirigido e atuado, o filme propõe a reflexão do nosso papel civilizatório enquanto nos instiga a pensar nos outros segredos que a terra deve guardar.    

Ficha Técnica

Ano: 2021

Duração: 1h52 min

Gênero: biografia, drama, história

Direção: Simon Stone

Elenco: Carey Mulligan, Ralph Fiennes, Lily James, Johnny  Flyyn

Avaliação do Filme

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