Por Luciana Ramos

De longe, Roy Courtnay (Ian McKellen) avista uma apreensiva Betty McLeish (Helen Mirren) sentada em um restaurante. Ao se apresentar, porém, ela tenta quebrar a tensão do encontro, revelando o desapontamento que geralmente sente em conhecer ao vivo os homens com quem conversa online. Não é o caso desta vez, diz. Comprometidos em tentarem construir uma relação, eles então revelam as mentiras dos seus respectivos perfis, comprometendo-se, dali em diante, com a verdade.

Ela vê o elegante senhor como um aposentado frágil, cujo problema no joelho acelera paulatinamente até a sua permanência no prédio onde mora, repleto de escadas, tornar-se insustentável. O repentino convite para que ele se mude para o quarto extra da casa dela assombra seu neto, Stephen (Russell Tovey), que não vê o relacionamento com bons olhos. A desconfiança nutrida apenas por instintos, segundo ele, não é de todo infundada já que Roy, nos momentos em que não está com Betty, não só anda perfeitamente como usa seu tempo aplicando golpes com o parceiro Vincent (Jim Carter) em investidores sedentos por dinheiro – especialmente pelos modos escusos de consegui-lo.

Nas suas empreitadas criminosas ainda demonstra disposição a levar vantagem às últimas consequências, o que o torna predisposto a métodos violentos. Estabelece-se, assim, um senso de perigo na sua relação com Betty, sentimento que cresce exponencialmente quando ele começa a lhe oferecer oportunidades de negócio.

“A Grande Mentira” trabalha bem esta atmosfera, apresentando reiteradamente pequenos elementos cuja veracidade pode ser duvidada. Não à toa, em um dos primeiros encontros, o casal decide ir assistir a “Bastardos Inglórios” para então questionar a sua validade fílmica, dada a imprecisão histórica – algo relevado por ela e condenada por ele, que necessita se reafirmar como o bastião da verdade inúmeras vezes a fim de fazê-la acreditar nisso.

A irreparabilidade moral vendida por Roy, alinhada ao seu charme (facilmente desmontável quando questionado) encontra-se com uma predisposição fora do comum da parte dela em acreditar em tudo que ouve, o que parece estranho, mas é bem justificado no terceiro ato. Assim, Stephen, um pesquisador, é o personagem que se estabelece como contraponto, mas as suas desconfianças são rebatidas com um senso de urgência de Roy, que deseja consumar seu golpe rapidamente.

Em um jogo onde os fatos apresentados são todo o tempo desmontados, desmentidos ou contextualizados, nem todas as peças são bem colocadas, tornando o roteiro forçado em alguns pontos, o que atrapalha a fluidez da sua absorção. Ainda assim, apresenta um desfecho interessante o suficiente para justificar-se, contando com o talento de Ian McKellen e Helen Mirren na criação do imprescindível elo com o espectador. O carisma de ambos é um dos melhores atributos do filme, como bem sabe o diretor Bill Condon, que os explora ao máximo.

“A Grande Mentira” não se lança a grandes pretensões, remetendo-se ao cinema de gênero para confecção de uma história que, embora muito comum até meados dos anos 2000, hoje é raramente retratada – símbolo do sufocamento dos filmes de médio porte em detrimento do investimento em blockbusters. Portanto, ter a opção de assistir a uma narrativa pautada na mescla do suspense e drama em uma sala de cinema, mesmo que esta caminhe em territórios já conhecidos, sem arriscar nada de novo, já é revigorante.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 109 min

Gênero: drama, suspense

Direção: Bill Condon

Elenco: Helen Mirren, Ian McKellen, Jim Carter, Russell Tovey

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Avaliação do Filme

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