Por Murillo Trevisan

Dono de uma incontestável e longa carreira – são 72 filmes atuando e 37 dirigidos – Clint Eastwood (“Menina de Ouro”) volta às telonas para o último papel de sua vida. Pelo menos é o que diz o ator no auge de seus quase 89 anos, que em 2008 também havia declarado sua aposentadoria frente às câmeras quando lançou “Gran Torino”, e que posteriormente voltaria a atuar em mais dois longas.

Em “A Mula”, Clint interpreta Leo Sharp, um nonagenário paisagista que coleciona uma série de prêmios por sua plantação de lírios, além de receber reconhecimento por sua contribuição durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, com o avanço da tecnologia, seu trabalho perdeu visibilidade, o levando à falência. Com o desespero batendo à porta, Sharp aceita transportar cargas para quitar suas dívidas e, assim, torna-se mula do Sinaloa, o cartel de drogas mais notório e poderoso do mundo, liderado por Laton (Andy Garcia).

Baseado numa história real – que gerou o artigo do New York Times, “The Sinaloa Cartel´s 90-Year-Old Drug Mule” – o longa escrito por Nick Schenk (“O Juiz”), que aqui repete a parceria com Clint Eastwood após “Gran Torino”, opta por estabelecer o lado familiar de um “americano exemplar” que recorre ao meio ilegal de conseguir dinheiro. A desgastada relação com sua filha (Alison Eastwood) e ex-esposa (Dianne Wiest) suavizam a condenável escolha do simpático senhor. Diferentemente de grandes obras que já abordaram semelhante temática – como a premiada série “Ozark” ou a venerada “Breaking Bad”- o filme desconsidera totalmente o mal causado por seus serviços como mula, anulando a existência de qualquer sentimento de culpa.

O encanto da trama está em acompanhar as situações engraçadas e desconfortáveis que aquele “velhinho” é inserido. Os eventos descabidos e contrastantes conseguem arrancar tímidos risos mesmo se tratando de situações incômodas. Outro fator cômico da obra é a rabugentice transparente com que Clint embebe o personagem. A não aceitação do novo, frisando sempre que os jovens não saem da frente do celular, ou a dificuldade que tem em mandar uma mensagem de texto, também rendem algumas boas piadas.

Infelizmente essas mesmas atitudes também entram de uma maneira descabível no roteiro. Alguns diálogos vexatórios expõe o partidarismo do diretor, que aqui usa como palanque para passar a mensagem de que “está velho demais para aceitar as mudanças”. Em uma determinada cena, ele para na estrada para ajudar uma família de afro-estadunidenses e os chama de uma maneira pejorativa. Rapidamente o casal o corrige dizendo que esse nome não pode mais ser utilizado, recebendo apenas um sorriso forçado com um subsequente “ok”.

A maneira que o protagonista trata os mexicanos – em que 99% trabalha para o tráfico – também não é mais cabível em produções atuais. A não ser que sejam expostas como críticas (o que não é o caso), as caçoadas com pessoas dessa nacionalidade são ofensivas, mas que tentam se camuflar no tom sereno de Leo Sharp. Um senhor idoso, caucasiano, veterano de guerra e conservador (exceto quando o assunto são mulheres para o prazer). Esse perfil estar ligado a um cartel mexicano é uma tremenda ironia para aqueles que culpam imigrantes pelo avanço do tráfico de drogas, como se os “estadunidenses modelos” também não tivessem tamanha responsabilidades.

Embora possuinte de escolhas problemáticas, o longa leva a vantagem de contar com a forte experiência de Eastwood na direção. Muito superior ao seu longa antecessor “15h17: Trem para Paris”, ele consegue mesclar de maneira admirável os tons de cada gênero que caminha, sem extrapolar os limites de qualquer estilo. Ele alterna da condução energética de um thriller para o sentimentalismo do drama familiar sem hesitar. Outro mérito está no desempenho dos coadjuvantes, mais especificamente nos personagens de Bradley Cooper (“Nasce uma Estrela “) e  Michael Peña (“Homem-Formiga e a Vespa“), que, mesmo com pouco tempo de tela, demonstram uma sinergia impressionante.

Como filme, “A Mula” acaba sendo uma boa despedida para a (segunda) aposentadoria do ator; porém, mas sua responsabilidade enquanto cineasta, perde uma excelente oportunidade de renovar sua mensagem.

Ficha Técnica

Ano: 2018

Duração: 116 min

Gênero: Crime, Drama, Thriller

Diretor: Clint Eastwood

Elenco: Bradley Cooper, Clint Eastwood, Michael Peña, Taissa Farmiga, Andy Garcia, Laurence Fishburne

Trailer

Imagens

Avaliação do Filme

Veja Também:

Matrix Resurrections

Por Luciana Ramos   Nos anos 90, sedentos por materiais originais, os grandes estúdios viram a profusão de produtoras independentes...

LEIA MAIS

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

Por Luciana Ramos Nos já distantes anos 2000, em meio à renovação das narrativas de super-heróis, a Sony Pictures investiu...

LEIA MAIS

A Disputa do Natal

Por Luciana Ramos   O documentário “A Disputa do Natal” começa leve, propondo contar a história de Jeremy Morris, um...

LEIA MAIS