Por Luciana Ramos

 

Alguns filmes são tão medíocres que nos levam a questionar suas existências, como o caso de “A Protetora”. Carecendo de lógica narrativa, inspiração estética ou mesmo o mínimo de carisma da atriz principal, a experiência de assisti-lo é excruciante.

Aos solavancos, a trama se desenvolve sem nenhuma imaginação: a protagonista é apresentada em seu posto de oficial militar em um evento trágico no exterior; traumatizada, ela retorna à Nova York, onde é convencida pelo seu tio Pat (Phillip Withchurch) e arranjar um emprego como porteira em um luxuoso condomínio. Não só ela descobre que o lugar é a moradia da família com quem não tem contato há anos (o viúvo da sua irmã e os dois filhos), como se vê no meio de um roubo que atinge diretamente…os seus parentes mais próximos.

Obviamente, o acontecimento – que ocorre apenas um dia após sua contratação – leva Ali (Ruby Rose) a ressuscitar seus instintos militares e colocá-los em prática para derrubar malfeitor a malfeitor, contando, para isso, com a ajuda de seu sobrinho, Max (Julian Feder).

Ainda que a descrição da premissa aponte a sua obviedade, é incapaz de dimensionar o quão clichê é “A Protetora”. O seu primeiro grande problema é a ansiedade em avançar a narrativa, tornando-a pouco crível – ou, para usar uma expressão popular, uma vítima do “muito conveniente”. Assim que Ali chega em Nova York após a dispensa oficial (com direito a honrarias após falhar miseravelmente em sua missão, primeira incongruência), ela aceita um trabalho distante da sua carreira para “curar seu trauma”, mas este nem é o ponto mais absurdo do primeiro ato.

A presença da sua abastada família no condomínio Carrington suscita questionamentos acerca do contraste social entre esta e Pat – sem contar a dimensão do relacionamento afetivo entre eles – mas o filme não oferece espaço para explorar nenhum ponto com profundidade, atendo-se aos tiros e explosões. O estreitamento afetivo de Ali com seus sobrinhos em menos de vinte e quatro horas também soa forçado, mas nada supera a citada conveniência para a prática criminal: uma reforma que obriga os moradores a deixarem a habitação, com exceção de dois apartamentos, sendo um habitado por idosos que interessam aos bandidos, e o segundo, as pessoas mais próximas à protagonista, suscitando a sua devoção completa na missão de libertá-los do encarceramento.

Diante da estruturação frágil em um cenário esvaziado – claramente apontando para as constrições financeiras da produção – e um grupo de poucos personagens, o roteiro (escrito em muitas mãos) esquiva-se da oportunidade de exploração dos ambientes em sequências de ação que poderiam minimizar a superficialidade dramática. Ao invés, se contenta com um número limitado de cenas do tipo, todas genéricas e mal feitas. Os excessivos cortes apontam para a fraqueza das coreografias de luta, enquanto a adoção de movimentações de câmera que invertem ângulos, em meio ao conservadorismo estético que rege o restante da produção, soam deslocados.

Não obstante, o diretor Ryuhei Kitamura ainda decide inserir referências cinematográficas absolutamente arbitrárias, como o uso de Wagner em sequência de perseguição (descrita verbalmente pelos personagens, caso algum espectador não a reconheça de prontidão) e apela para os mais variados clichês, do ladrão francês civilizado e sommelier (Jean Reno, cuja presença no filme é inexplicável) às picuinhas entre os grupos de ladrões. Mais surreal ainda é, em determinada cena, o bandido Borz (Aksel Hennie) escapar da polícia ao literalmente apontar Ali como criminosa, seguido da absurda decisão dela de brigar com todos os homens armados ao invés de se identificar como militar.

Em meio a tantas decisões narrativas descabidas, o filme perde totalmente a credibilidade e suscita inúmeros questionamentos ao longo de sua projeção, sendo o mais fundamental a miopia de produtora e distribuidora diante da óbvia mediocridade do material, já que ele não serve nem para o consumo instantâneo e descompromissado. Ainda sobra espaço para criticar a participação de Ruby Rose no longa, já que a atriz está completamente insossa em um papel que não lhe exige muito.      

Ficha Técnica

Ano: 2020

Duração: 90 min

Gênero: ação

Direção: Ruyhei Kitamura

Elenco: Ruby Rose, Aksel Hennei, Jean Reno, Julian Feder

Avaliação do Filme

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