Por Luciana Ramos

 

Como no caso de outras diversas figuras históricas que ousaram desafiar o sistema, o australiano Ned Kelly virou uma lenda no seu país, passando a simbolizar a luta dos oprimidos por mudanças. Ao invés de adotar o tradicional molde hollywoodiano para contar a sua jornada, o diretor Justin Kurzel resolve desgarrá-la do tempo histórico (realizando, para tanto, mesclas com modernismos) para construir um diálogo sobre representações masculinas e a toxicidade atrelada ao conceito.

Uma adaptação do romance de Peter Carrey, o filme começa com as palavras confusas e esparsas de Kelly (George Mackay, espetacular no papel), que assume a sua deficiência educacional ao escrever uma carta para o filho, discursando sobre sua vida. Esta, pode-se dizer, foi marcada pela pobreza e tragédia: seu pai (Bem Corbett) foi condenado à morte por um roubo que ele, enquanto menino, cometeu; sua mãe (Essie Davis) prostituía-se para colocar comida na mesa dos inúmeros filhos. Diante desta configuração, esperava-se que ele, o mais velho, tomasse o papel de “homem da casa”.

Este termo é importante pois define toda a argumentação de “A Verdadeira História de Ned Kelly”: trata-se de um estudo sobre o conceito de hombridade, como se constrói e o que é esperado dele; além disso, acaba discorrendo também sobre o papel das mulheres, vistas no longa como prostitutas que “não valem” a dedicação e amor dos homens, princípio que Ned irá desafiar com seu envolvimento com Mary (Thomasin McKenzie).

Neste escopo, um dos aspectos mais importantes é a violência, percebida por inúmeros personagens, a começar por sua mãe, como o salto de “menino” a “homem”. A apresentação em tenra idade ao usufruto da fúria o faz perder alguns limites da civilidade. Sem contrabalanço, ele cresce em uma espiral ascendente de crimes que o conduzem à marginalização, mesmo a diante de suas inúmeras tentativas de inserção na sociedade.

Atingido o ponto de não-retorno, Ned decide assumir de vez a persona transgressora, organizando um grupo de homens tão pobres e carentes de sentido quanto ele para lutar contra o sistema, aqui simbolizado pela polícia australiana. Nos combates, estes “filhos da Irlanda” (uma reafirmação da origem) usam vestidos como modo de desafio às normas sociais vigentes, traço adotado por grupos transgressores anteriores ao dele, como o que integrou o seu pai. A má compreensão deste conceito quando pequeno, atrelada à homofobia latente em construções de masculinidade tóxica, o levaram a rechaçar a figura paterna no passado e levaram sua mãe a buscar influências mais “fortes”, como a de Harry Power (Russell Crowe), cuja ideia de educação é fazer um menino pequeno atirar nas genitais do oficial (Charlie Hunnam) que abusou da sua mãe.

Visualmente interessante, o filme sabe compor belíssimos planos, em especial nas sequências de batalha, que combina usa de flares, slow motion e uma névoa de pólvora que acentuam a atmosfera das cenas. A mescla de figurinos de época e modernos – Ned chega a usar jeans– somam-se ao uso do punk na trilha sonora como elementos que tanto realçam o tom contestador da produção quanto à sua independência de rigor histórico, já apontada no seu início em letras garrafais.

Em contraponto, há um certo arrastamento da trama em repetições que o tornam um tanto desgastante e enfadonho até o terceiro ato. Kurzel parece querer reafirmar demais os seus pontos argumentativos, atendo-se ao uso de clichês e diálogos demasiadamente explicativos que fluidificam a sua potência. Assim, “A Verdadeira História de Ned Kelly” termina não sendo tão satisfatório quanto prometido, valendo-se muito do primor do elenco para se manter interessante.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Duração: 124 min

Gênero: biografia, crime, drama

Direção: Justin Kurzel

Elenco: George Mackay, Essie Davis, Nicholas Hoult, Charlie Hunnam, Orlando Schwerdt

Avaliação do Filme

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