Por Marina Lordelo

 

Uma mulher mestiça que navega em um veleiro por entre um vasto canavial – assim é a primeira sequência de Açúcar, filme de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. Renata, já consolidada como diretora de arte de diversos outros filmes (Amarelo Manga, Tatuagem, Zama, por exemplo), tem neste seu segundo longa-metragem de ficção como co-diretora.

Açúcar trata então da história de Bethânia (Maeve Jinkings), que sozinha retorna ao lugar que nasceu, uma casa grande cercada por uma plantação de cana-de-açúcar, na tentativa de impedir que a propriedade seja transformada em um local de interesse cultural e social pelos moradores do entorno. Ela é uma mulher preconceituosa e insegura, mas que carrega em si a herança da raça a qual se opõe.

Tratar do racismo no cinema contemporâneo brasileiro não é um assunto que os realizadores brancos, de forma geral, costumem fazer com habilidade. Recentemente houve polêmicas instauradas com o filme Vazante (2018) de Daniela Thomas sobretudo pela escolha do seu ponto de vista narrativo. Por outro lado, No Coração do Mundo (2019), de Gabriel Martins e Maurílio Martins, alcança uma sutileza em apresentar o tema de forma mais consciente e engenhosa. Nessa balança irregular caminha o cinema nacional, e infelizmente, Açúcar soma-se ao lado mais desbalanceado.

Em assumir o gênero fantástico para desenrolar a narrativa, o roteiro atribui a elementos descolados da realidade para construir a alegoria que cerca o desajuste emocional que sofre a protagonista. Mas o gênero também usa seus códigos de forma confusa e algumas vezes inabilidosa, associando ao medo elementos da religiosidade de matriz africana, algo amplamente combatido pela militância negra. Ancorar sentimentos de repulsa/medo da protagonista em manifestações religiosas reforça no espectador estigmas que devem ser desconstruídos.

A forma segue o passo da narrativa – a câmera de Fernando Lockett algumas vezes se comporta como instrumento de guerra, outras com uma atividade exagerada que impede que as personagens ganhem mais força na tela. Em uma cena constrangedora, a câmera acentua tanto o desconforto de Bethânia com a declaração de sua madrinha Branca (Magali Biff) que o tom over atrapalha a construção da mise-en-scène. Em contrapartida, uma outra sequência entre madrinha e afilhada, Lockett acerta na iluminação azulada que mergulha (literalmente) as duas em uma solidão alegórica. Inclusive o trabalho de iluminação, sobretudo noturna, vem a ser o ponto mais forte da direção de fotografia.

Bethânia não deseja se reconhecer, não quer saber o que ela é ou a que grupo pertence. Ela deseja se distanciar de tudo que grita para colocá-la no lugar a que deveria estar e extrapola seus sentimentos mais escusos em Alessandra (Dandara de Moraes), assumindo muito preconceito, racismo, intolerância e pretensão. Bethânia pode ser uma alegoria social, pode ser uma projeção e pode também ser o que se deve temer. Mas falta um pouco no branco do Açúcar para deixar mais evidente o que é horror e o que deve ser – qual é o lugar da branquitude.  

FICHA TÉCNICA

Ano: 2020

Duração: 100 minutos

Gênero: drama, thriller, fantasia

Diretor: Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira

Elenco: Maeve Jinkings, Dandara de Moraes, Magali Biff.

Avaliação do Filme

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