Por Luciana Ramos

Logo ao ser lançado em 1868, o romance “Adoráveis Mulheres” (ou “Mulherzinhas” em algumas edições no Brasil) conquistou o público americano e, posteriormente, o mundo pelo modo sensível e complexo com que Louisa May Alcott construiu a história das irmãs March – dos vestidos chamuscados aos cabelos queimados ou cortados; da falta de dinheiro para a compra de uma fita à sobra de talento das meninas, mesmo que não apreciado como deveria na época.

O envolvimento da garota com nome masculino (Jo) com o vizinho, um rapaz com nome feminino (Laurie), é apenas um dos deliciosos detalhes que não só tornam o livro rico, mas também progressista, já que, em meio à rotina das garotas March, destila-se detalhadamente sobre suas condições femininas em um mundo ainda extremamente machista, moldado, como ela descreve, pelo contrato social e financeiro chamado casamento – noção desafiada pela própria matriarca Marmee que casou por amor.

Naturalmente, o peso da obra literária o tornou cobiçado por cineastas ao longo da história do cinema, dando vazão a diversas adaptações. A mais recente e talvez mais famosa é a de 1994. O gracioso panorama montado pela diretora Gillian Armstrong, à primeira vista, retiraria a necessidade de uma nova refilmagem da obra no momento (embora Hollywood adore reciclar seus temas em curtos ciclos temporais) , mas a insistência de Greta Gerwig em fazê-lo – primeiro como roteirista e, posteriormente, assumindo também a posição de diretora – demonstra não só a riqueza da obra, que abre espaço para interpretações distintas, como também a apuração do seu olhar feminino, capaz de, ao mesmo tempo, manter a fidelidade do texto original, e modernizá-lo.

Isso significa que o seu filme possui todos os elementos característicos do romance, seus momentos pivotais e as frivolidades entre eles, mas, ao propor-se em mudar a estrutura narrativa, optando-se pela não linearidade, muda-se o peso de cada evento, deslocando a base da história dos flertes e as aventuras de criança para um foco na vida adulta, os talentos distintos de cada personagem e o modo como eram encarados socialmente. Quem mais se beneficia com este tratamento é a protagonista Jo (Saoirse Ronan), que passou a vida entretendo a família com suas peças. Seu amor pelo livro é a tradução do amor da própria autora (uma vez que “Adoráveis Mulheres” nada mais é do que o retrato que Louisa pintou de suas irmãs) e sua saga em firmar-se como escritora espelha-se na de Alcott. Este espelhamento contextualiza a necessidade imperativa do casamento das irmãs March, por exemplo, algo que lhe foi proposto por seu editor na época e inserido cirurgicamente na trama do filme.

Esta escolha narrativa também explica muito melhor do que o filme anterior a personalidade de Amy March (Florence Pugh), a mais nova do grupo, que sonha em ser pintora, mas é levada pela tia rica (Meryl Streep) para Paris a fim de buscar um marido. A decisão molda-se no fato de que suas irmãs são vistas como fracassadas, o que lhe impõe o sustento de toda a família no futuro. Assim, as escolhas das mais velhas moldou a sua experiência de vida e lhe renegou um caminho mais artístico e libertário como o de Jo, por exemplo. A sua percepção do fato e abnegação ao mesmo, seguido da sua tentativa de controlar o mínimo do seu destino ao buscar um casamento que una os pré-requisitos financeiros ao romance, é um dos pontos altos do filme.

Alternando entre flashbacks e o retrato da vida adulta, Greta concatena as passagens mais relevantes por pontos em comum, tornando a história fluida e palatável. Preocupa-se também claramente com o espaço de cada personagem, buscando contextualizar cada situação que enfrentam a partir de suas visões de mundo, o que demonstra imenso respeito pela obra original. Esta riqueza traduz-se no olhar da câmera, cuja diversidade de planos e movimentações também afirma um amadurecimento da diretora em relação ao seu primeiro trabalho, “Lady Bird”.

Os figurinos detalhados, direção de arte impecável e os acordes suaves e por vezes melancólicos de Alexander Desplat complementam a obra, lhe alçando a um patamar superior de qualidade. No centro, dispõe-se o talento do corpo de atrizes que dá vida às March – Saoirse Ronan como Jo, Emma Watson como Meg, Eliza Scalen como Beth, Florence Pugh como Amy, Laura Dern como Marmee e Meryl Streep como a tia March – que sabe conceder a dose certa de vivacidade e distinção a cada uma delas. Destacam-se, no entanto, os trabalhos de Ronan, que explora toda a estranheza, inadequação e consequente charme de sua Jo, e Pugh, que realiza um ótimo trabalho em atenuar os traços mais mimados da caçula da família com seu desejo de inclusão (tanto no grupo das irmãs quanto, posteriormente, da sociedade) sem nunca, para isso, abdicar da sua personalidade forte.

A vida adulta é dura para as irmãs March, mais do que tinham imaginado nas sessões de teatro que planejavam com Laurie (Timothée Chalamet). Para ele, do mesmo modo, há as cobranças do desempenho de um certo papel, o qual não parece muito apto e o leva a se refugiar no seio daquela família vizinha à sua. Todos, no entanto, possuem os equipamentos para lidarem com as desilusões e durezas impostas pela vida pois possuem, no fundo de suas memórias, as lembranças prazerosas de um tempo feliz, gasto com criações artísticas e preocupações mundanas.

Acima de tudo, há a sensível inserção da camada literária na ação dramática, o que não só permite a conexão da jornada de Jo com a de sua autora, L. M. Alcott (como assinou na época, símbolo do machismo da sociedade em que vivia), como também atesta para o valor da criação literária – a beleza do processo gráfico da construção de um livro, seu peso nas mãos do escritor, o orgulho e sensação de completude inerentes à árdua e também prazerosa jornada de escrevê-lo.  

Ficha Técnica

Ano: 2020

Duração:

Gênero: drama

Diretor: Greta Gerwig

Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson, Eliza Scalen, Florence Pugh, Laura Dern, Meryl Streep, Bob Odenkirk, Timothée Chalamet

Trailer:

Avaliação do Filme

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