Por Luciana Ramos

 

Penny Rust (Rebel Wilson) ganha a vida aplicando pequenos golpes em homens fúteis que a subestimam. Aproveitando-se do pouco que recolhe para desfrutar os prazeres da vida, ela decide ir à Beaumont-du-Sur, na Riviera Francesa, para arrancar dinheiro de milionários. No caminho, conhece a sofisticada Josephine Chesterfield (Anne Hatahway), que ora a trata com desdém, ora com curiosidade.

Ao ser presa, Penny descobre que Chesterfield é também uma criminosa, embora a diferença entre o nível de sucesso entre ambas seja abismal. Decidida a evoluir na arte dos golpes, ela convence Josephine a lhe ensinar tudo que sabe; em troca, ela deixará a rival, que já domina a localidade, em paz. Porém, o surgimento de um jovem milionário da tecnologia empolga as duas, que entram em direta concorrência para enganá-lo. A questão se resolve com uma simples aposta, pautada primeiro no dinheiro e, posteriormente, na afeição do ingênuo rapaz.

“As Trapaceiras” parte de uma promessa cômica simples, pautada na elaboração dos golpes, assim como na capacidade das duas criminosas de improvisarem diante dos obstáculos, demonstrando, assim, seus talentos para o crime. Constrói-se, portanto, a partir da ideia de opostos cômicos, sendo Rebel Wilson o personagem chulo, com uso de linguajar vulgar e apelo a comédia física, contrapondo-se à afetação excessiva de Anne Hathaway, desde o seu sotaque inglês forjado ao modo dramático como se move.

A trama consegue estabelecer bem as diferenças entre as personagens, mas falha em fundamentar as razões que as mantém juntas: a desculpa de que uma criminosa poderosa como Josephine se sinta ameaçada pela recém-chegada e aquiesça às suas vontades é bastante fraco. Do mesmo modo, em determinado momento, o roteiro busca por mais relevância e, para isso, decide embasar o “trabalho” de Penny em uma aura de vingança, estabelecendo-o como fruto do modo como é tratada pelos homens. Dessa forma, a interação positiva com Thomas (Alex Sharp) a leva a questionamentos morais que, sem a estrutura adequada, destoam do mote principal, tornando-se supérfluos à narrativa.

As passagens dos golpes, que seriam o maior atrativo da produção, oscilam em qualidade, mostrando-se, em geral, pouco inspiradas. Fortemente pautado na interação entre as duas atrizes principais, o filme sofre muito com o desempenho cerebral de Rebel Wilson. Ela, que construiu a sua marca em Hollywood levando o deboche ao limite, tenta alavancar os diálogos com inserções cômicas mais absurdas. As longas pausas entre suas falas, porém, expõem totalmente a sua linha de raciocínio, enfraquecendo o seu valor cômico por revelar o imenso esforço que faz em ser engraçada.

Anne Hathaway, por sua vez, faz um bom trabalho como Josephine, lançando-se à comédia física quando necessário sem perder a pose. A afetação dos seus trejeitos, embora por vezes irritante, adequa-se ao molde de sua personagem, mas o seu desempenho é desperdiçado em uma trama com muito pouco a oferecer – e que ainda se lança ao clichê máximo da atualidade: os plot twists ao final, uma tentativa quase desesperada de dar alguma relevância à obra nos minutos finais.

De fato, “As Trapaceiras” levanta questionamentos sobre a sua realização, tanto do ponto de vista do estúdio quando das atrizes. O primeiro ponto pode ser explicado pela predileção atual por obras genéricas e, portanto, mais apelativas que surgem para cobrir as lacunas do calendário de lançamentos, sustentando a indústria entre os blockbusters e os filmes autorais e artísticos, lançados próximos ao final do ano quando as associações votam para as premiações principais.

Do ponto de vista artístico, o filme, também produzido por Wilson, mostra-se como um veículo para a atriz explorar seus dotes cômicos e, apesar de falhar miseravelmente no quesito, enquadra-se no tipo de trabalho corriqueiro que escolhe. Infelizmente, filmes bem simples, mas charmosos como “Megarrromântico” são uma exceção no seu currículo. A participação de Hathaway, por sua vez, é um pouco frustrante, pois confirma um momento de baixa em sua carreira, marcado por escolhas ruins como o terrível “Calmaria”, o que suscita questionamentos tanto sobre suas motivações pessoais quanto sobre a orientação que recebe dos profissionais que a cercam e são responsáveis por lhe achar papéis.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 93 min

Gênero: comédia

Direção: Chris Addison

Elenco: Anne Hathaway, Rebel Wilson, Alex Sharp

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

Veja Também:

Cidade Perdida

Por Luciana Ramos   Loretta Sage (Sandra Bullock) é uma romancista de sucesso, tendo criado uma franquia de aventura em...

LEIA MAIS

Downton Abbey II: Uma Nova Era

Por Luciana Ramos   No farfalhar dos sinos, a equipe de funcionários se agita, tentando descobrir qual membro da família...

LEIA MAIS

Medida Provisória

Por Luciana Ramos Ao longo de mais de duas décadas de devoção à arte, Lázaro Ramos entregou-se aos mais variados...

LEIA MAIS