Por Murillo Trevisan

O novo “Brinquedo Assassino”, apesar de ser um remake do clássico de 1988, carrega poucas semelhanças de seu material original. A plot permanece a mesma – de uma da mãe que presenteia o filho com um boneco nada convencional que se transforma no mais temível assassino. Porém, o filme traz uma atualização (teoricamente) bem-vinda, que modifica completamente a sua essência.

Dessa vez, Andy Barclay (Gabriel Bateman) não é mais uma criança de 6 anos de idade, mas sim um pré-adolescente por volta dos 14 anos, que é fissurado em tecnologia e no mundo virtual, o deixando com dificuldade de fazer novas amizades com crianças de sua idade. Chucky também sofre uma grande alteração. Agora o boneco não é mais a encarnação de um assassino como na versão original, mas sim um brinquedo tecnológico que funciona com uma inteligência artificial, com a capacidade se conectar com os objetos da casa (assim como um Google Home, ou a Alexia da Amazon).

Desse modo, Chucky (Mark Hamill) deixa de ser “naturalmente” malvado desde o princípio. Ele apenas está vulnerável, pois sofreu uma alteração criminosa por um funcionário em sua fabricação, que removeu os inibidores de censura e violência de sua IA (inteligência artificial). Sua perversidade vai evoluindo à medida que ele acompanha o Andy em sua jornada, aprendendo xingamentos e atitudes agressivas, até virar um psicopata por completo.

A intenção de dar um upgrade na franquia, fazendo essa grande alteração na origem do icônico boneco é acertada. A ideia de trazer essa trama mais próxima à nossa realidade atual, sinalizando os perigos das tecnologias modernas, funcionaria perfeitamente bem se não fosse a ineficiência e esquizofrenia do roteiro de Tyler Burton Smith. O longa sofre com uma crise de personalidade, sem saber se quer ser uma ficção científica; abordando a nova temática, ou se fica no terror gore; assim como o material original, ou até se arrisca em uma comédia/aventura infanto-juvenil; embalado no sucesso de “IT – A Coisa” (2017), no qual os produtores Seth Grahame-Smith e David Katzenberg também estavam envolvidos.

Essa última opção, curiosamente é a que mais funciona. Mesmo com a inexperiência de Gabriel Bateman (“Quando as Luzes se Apagam”) que tenta segurar o protagonismo forçadamente, junto ao sofrível elenco de apoio infantil, ver aqueles jovens transformando esse bizarro terror em uma grande aventura de bairro, acaba dando um ar leve e divertido ao longa.

O filme também traz Aubrey Plaza (“Ingrid Vai para o Oeste“) como a mãe, que repete os divertidos trejeitos de April Ludgate, sua personagem em “Parks and Recreation”, e Brian Tyree Henry, conhecido pela série “Atlanta”, no papel do detetive Mike Norris. Todos eles estão ótimos em seus papéis, mas o filme não os favorece, já que seus personagens não tem o mínimo de profundidade. O único personagem que realmente ganha mais atenção é o próprio Chucky, que aumenta seu carisma ao assumir a voz de Mark Hamill, um dos mais competentes dubladores norte-americanos da atualidade, que frequentemente dá voz ao Coringa nas animações da DC.

Sem o envolvimento (e apoio) de Don Mancini, criador e roteirista de toda saga original, “Brinquedo Assassino” (2019) arrisca na inovação, mas fracassa profundamente, desperdiçando uma plot interessante – que funcionaria perfeitamente em um episódio de “Black Mirror” ou em um eficiente filme de terror.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 90 min

Gênero: Terror

Diretor: Lars Klevberg

Elenco: Aubrey Plaza, Mark Hamill, Tim Matheson, Brian Tyree Henry, Gabriel Bateman

Avaliação do Filme

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