Por Murillo Trevisan

Onze anos após o início da saga cinematográfica da Marvel – tendo sua abertura em 2008 com “Homem de Ferro”, apresentando o icônico Tony Stark (Robert Downey Jr.) ao grande público – a Disney Pictures/Marvel Studios aposta no primeiro longa da MCU protagonizado por uma mulher, no desejo de colocá-la na liderança do grupo nas novas fases. A heroína em questão é Carol Danvers, mais conhecida como Capitã Marvel, que até então não havia sido apresentada ou ao menos citada nos últimos vinte filmes – com exceção da cena pós-créditos de “Vingadores: Guerra Infinita” (2018) – embora sua jornada se passe na década de 90.

Na trama, Danvers (Brie Larson) é uma ex-agente da Força Aérea norte-americana, que, desmemoriada de sua vida na Terra, é recrutada pelos Kree – uma raça de nobres guerreiros e heróis – para fazer parte de seu exército de elite. Após uma missão fracassada contra os Skrull, ela acaba voltando ao seu planeta de origem para impedir a invasão dos metamorfos, e com a ajuda do agente Nick Fury (Samuel L. Jackson), acaba descobrindo a verdade sobre si.

Apesar da necessidade de introdução da “nova” personagem nesse universo, os roteiristas Anna Boden (“Sugar”), Ryan Fleck (“Half Nelson: Encurralados”) e Geneva Robertson-Dworet (“Tomb Raider: A Origem”) optam por uma linha não convencional de narrativa para filmes de origem. Primeiro conhecemos Vers – nome Kree de Carol – já com poderes para que, através de curtos flashbacks, entendamos como ela chegou naquele ponto. Esta é uma experimentação que daria um tom de originalidade para o longa, não fosse a má construção da montagem, que encaixa essas breves memórias em momentos inoportunos. A falta de uma introdução mais aprofundada – de uma dedicação maior ao seu background – cria um desinteresse e uma desconexão do espectador com a protagonista.

Tal apatia resulta em um primeiro ato, dedicado em sua maior parte à busca pelas memórias – chato e cansativo. São poucas as cenas de ação que cativam e despertam empolgação, mesmo que breves. Mesmo assim, esses raros momentos não são memoráveis e muito menos de boa execução. As coreografias de combates corpo-a-corpo são duras, de muitos cortes e closes, tentando esconder através de técnicas as falhas e presença de dublês.

Infelizmente, ao menos nesse primeiro longa da personagem – que retornará em muitos outros das próximas fases da MCU – Brie Larson (“Brie Larson”) não está em sua melhor forma. Ela não apresenta em tela o mesmo carisma que demonstra nos bastidores. Em 90% de seu tempo em tela está fazendo caretas e poses “heróicas”, anda sempre com os punhos fechados e braços esticados para baixo, como se suas mangas sempre fossem maiores que os braços. Curiosamente, essas poses não são inseridas quando Carol aparece em CGI, ressaltando um vício de postura da atriz. É injusta – mas válida – a comparação com a Mulher-Maravilha de Gal Gadot, que rouba a cena em qualquer filme de grupo da DC em que aparece.

O ponto positivo do elenco é jovem Fury de Samuel L. Jackson, que rouba a cena toda vez que aparece, e empolga com vislumbres a filmes de “buddy cops” de sua parceria com o novato Agent Coulson (Clark Gregg). Aliás, outro tópico que merece elogios é a tecnologia de rejuvenescimento utilizada em ambos os agentes, que beira à perfeição. Outros detalhes em computação gráfica ficam abaixo deste resultado e até mesmo de longas mais antigos da saga, mas ainda é o que há de melhor nesses blockbusters.

Em busca de uma mudança na estrutura, a Disney decidiu por deixar o comando nas mãos de dois diretores independentes – os também roteiristas Anna Boden e Ryan Fleck, do divertidíssimo “Se Enlouquecer, Não se Apaixone” (2010) – que mesmo assim não se arriscam tanto, e acabam por usar a fórmula Disney, com piadas sempre no mesmo padrão que aqui não funcionam. A escolha de trazer a história para os anos 90 também os fez reféns de toda a timeline dos últimos vinte filmes, se vendo na obrigação de explicar alguns eventos necessários e outros, nem tanto, como é o caso da perda do olho de Nick Fury. Essa mesma necessidade remete ao recente fracasso de “Han Solo” (2018) e suas supérfluas desmistificações do personagem, que aqui felizmente não terá o mesmo resultado desastroso por se tratar de um filme episódico e pré-nova fase.

Apesar de tantos pontos negativos, “Capitã Marvel” ainda sim é divertido em alguns pontos, mas decepciona por ficar tão aquém dos recentes sucessos da Marvel Studios, especialmente dadas as expectativas do fechamento de “Vingadores: Ultimato”, onde Carol Danvers terá suma importância.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 124 min

Gênero: Ação, Aventura, Sci-fi

Diretor: Anna Boden, Ryan Fleck

Elenco: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Ben Mendelsohn, Jude Law, Annette Bening, Lashana Lynch, Clark Gregg

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