Por Luciana Ramos

 

Após trabalhar em um hotel, Guccio Gucci criou a muito custo uma marca com seu sobrenome, voltada para artigos de couro. Oferecendo itens luxuosos, viu o nome expandir a ponto de construir um império com a ajuda dos filhos, em especial Aldo, um homem com apuro refinado para os negócios. Ao morrer, Guccio excluiu a filha Grimalda (que lhe emprestou dinheiro quando a primeira loja estava prestes a falir) do testamento e, portanto, das ações da empresa, por ela ser mulher.

Este é apenas um adendo da história da família, tão irrelevante na miríade de maquinações e crimes dos Gucci que nem chega a ser citado no filme sobre a marca, mas mostra-se interessante por ressoar o machismo que permeia os pensamentos dessa estrutura familiar/empresarial e, dessa forma, restringe as possibilidades de Patrizia Reggiani a um escopo muito pequeno: mesmo tentando por toda a vida, ela nunca teve o controle dos negócios ou mesmo a validação de ser reconhecida como uma verdadeira Gucci.

Mesmo assim, suas ações ao longo de “Casa Gucci” demonstram ignorância ou negação em níveis assustadores. Visando o objetivo final de ter poder, Patrizia (Lady Gaga) ignora os diálogos em que Aldo (Al Pacino), Paolo (Jared Leto) ou Maurizio (Adam Driver) a lembram do “seu papel”, reagindo com raiva, determinação e cinismo. Como um animal belo, exótico e que sabe encurralar as presas vagarosamente, ela arma situações sem se preocupar com resultados, mesmo que eles tenham desdobramentos negativos em sua vida.

Caminhando entre brigas, dramas e generosas pitadas de conteúdo criminoso, o filme de Ridley Scott se abstém de tecer algum comentário moral mais enfático, ou mesmo de trabalhar um único tema à exaustão. Sem focar no assassinato que define o fim do império familiar, a narrativa carece da pungência ácida da série “Sucession”, similar em tema, ou mesmo do filme anterior de Scott, “Todo o Dinheiro do Mundo”. Ao contrário, o que se tem é um encadeamento passivo de acontecimentos cujo apelo se dá pelo seu caráter assombroso.

Apesar de impedir que o longa se torne um exercício espetacular sobre poder e legado, essa escolha não se mostra totalmente equivocada, visto que “Casa Gucci” é uma experiência ao todo positiva: há humor, fascínio, chiqueza, manipulações e escárnio de sobra.

A trama começa no encontro de dois estranhos no bar de uma festa. Ao saber se tratar de Maurizio Gucci, Patrizia Reggiani passa a cercá-lo pelas ruas da cidade, provocando uma série de encontros “casuais” até o romance engatar de vez – gerando a fúria de Rodolfo (Jeremy Irons), pai do garoto. O desentendimento leva o tímido e inseguro Maurizio a ir morar com os sogros, donos de um negócio bem-sucedido de transporte, devidamente desdenhado pelos Gucci por não coincidir com a aura de glamour que eles ostentam.

Após o casamento dos dois, Patrizia consegue aproximar o marido de Aldo, seu tio e chefe da divisão americana da marca, que concorda em treiná-lo. A vida de riquezas encanta a mulher, mas sua satisfação é transitória: sempre focada no montante que ainda não possui, ela passa a investir na derrocada do adorado parente e seu filho, Paolo, detentor de 25% das ações.

O filme constrói um espetáculo visual de roupas, locações e perucas em um mix entre chique e propositalmente cafona. O exagero – do sotaque de Paolo ao corte de cabelo de Patrizia – contrapõe-se à sobriedade das pequenas corruptelas que vão sugando qualquer moral dos personagens. O glamour, neste contexto, continua apelativo pela ideia transmitida de poder e sedução, mas é sempre posto um tom acima do bom gosto.

A excelência dos figurinos e design de produção são enfatizados por um trabalho de câmera que se detém nos detalhes para transmitir o valor de cada símbolo. A trilha sonora, por sua vez, soa estranha ao início por ser pouco ortodoxa, mas realiza um excelente trabalho ao unir os ideais da narrativa: o clássico, como a ópera, reafirma a ideia que os Gucci cultuam de si; já o pop, na forma de hits dos anos 70 a 90, não só serve para pontuar historicamente os eventos como também ressoa a personalidade menos refinada de Patrizia.

Talvez o maior trunfo seja o fato de Ridley Scott reconhecer o talento de Lady Gaga e deixá-la explorar a fundo sua personagem. Em uma miríade de sotaques e atuações que transitam entre a elegância contida de Jeremy Irons e a caricatura ofensiva de Jared Leto (que parece ainda estar atuando como o Coringa), Gaga acerta no tom, abraçando a personalidade extravagante de Patrizia sem se esquecer da sua complexidade psicológica.

Mesmo tortos, seus motivos soam convincentes na boca da atriz; já seus maneirismos entregam a construção racional por trás do seu comportamento, a exemplo das vacilações corporais nos primeiros encontros de Maurizio, um esforço para encontrar o equilíbrio entre assertividade e medo de afastar sua presa. Gaga conta muito com a parceria do ótimo Adam Driver na composição de uma dinâmica pautada por mentiras e subversões, sendo as características introvertidas de Maurizio ingredientes extras para sua definição como seu contraposto. “Casa Gucci” é o seu show e Lady Gaga demonstra imenso talento para a atuação.

Unindo componentes estéticos interessantes ao apelo sádico em acompanhar uma família se fragmentando por dinheiro, o filme possui ressalvas suficientes para não ser excelente, mas é competente no que oferece. É o tipo de produção que, mesmo com quase três horas de duração, pode ser revista à exaustão pois intriga, diverte e enche os olhos.

Ficha Técnica

Ano: 2021

Duração: 2h 37 min

Gênero:drama, crime

Direção: Ridley Scott

Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Jeremy Irons, Jared Leto, Al Pacino, Salma Hayek

Avaliação do Filme

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