Por Luciana Ramos

 

Criado em 1926, o Ursinho Pooh (conhecido anteriormente no Brasil como Puff) tornou-se símbolo de uma Londres abatida e deprimida pós-Primeira Guerra. Em contraponto ao sentimento de desesperança do país, havia um grupo de simpáticos bichinhos comandado pelo urso viciado em mel que vivia na Floresta dos Cem Acres junto ao garoto Christopher Robin.

A leveza de uma existência onde “não fazer nada” sempre levava a uma nova aventura trouxe a felicidade a leitores de todo o mundo e firmou estes personagens no imaginário popular. Muitas adaptações, incluindo uma série animada que passou no Brasil nos anos 80/90, seguiram-se. Distanciando-se do lugar comum de outras sequências, “Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível” propõe um novo ângulo de abordagem.

A trama é focada no personagem do garoto, que cresceu e conheceu um mundo de obrigações e perdas, como demonstrado por sua passagem na Segunda Guerra Mundial. O amadurecimento o levou a compor uma família, a qual sustenta com o salário de gerente de eficiência de uma empresa de malas. Sua posição, no entanto, parece ter sido incorporada a fundo por ele, que dispensa conversas amigáveis com colegas ou brincadeiras com a filha por enxergar tais atos como “perda de tempo”.

 

 

Assim, Christopher (Ewan McGregor) simboliza uma contraposição muitas vezes feitas nos mundos literário e cinematográfico: o da vida adulta como um estado de espírito pouco inspirado, sóbrio e sobrecarregado por responsabilidades, onde conceitos como diversão são perdidos. Ao abandonar seus amigos animais para ir estudar em um internato, ele deixou para trás sua capacidade de enxergar a vida com humor, de improvisar e se aventurar.

Pressionado para reduzir custos, ele se vê obrigado a trabalhar no final de semana, negligenciando esposa (Hayley Atwell) e filha (Bronte Carmichael) mais uma vez. Sozinho e desesperado, encontra por acaso com seu antigo amigo Pooh que, por sua vez, se perdeu dos amigos e precisa da sua ajuda. Culpado pelo modo como lida com a situação de início, Christopher resolve embarcar na missão e, ao reencontrar a antiga floresta da infância, relembra progressivamente da sua essência, enxergando novamente o valor da sua vida e a importância de estar com quem se ama.

A ideia de pegar um personagem querido e reconstruí-lo sob outra ótica é bastante interessante, principalmente por desviar-se da mesmice de tantas produções genéricas que apostam no caminho seguro. No entanto, o filme de Marc Forster cai em uma perigosa (e básica) armadilha, a de não definir bem o seu público-alvo.

 

O início excessivamente melancólico indica que a obra é voltada para pessoas adultas que desejam uma reflexão mais aprofundada sobre a vida através da revisitação dos seus personagens queridos da infância. Este delineamento ganha força no lamento de Pooh de ter sido abandonado por Christopher, potencializado pelo modo como é facilmente descartado quando eles se encontram.

 

 

A narrativa é enfatizada pela fotografia, que deseja transmitir esse sentimento imageticamente. A Floresta dos Cem Acres, agora sem o garoto, cobriu-se por uma névoa que não desaparece. Esta também está presente em Londres, trabalhada em tons sóbrios. Os enquadramentos são parcialmente iluminados por pontos focais, como janelas e luminárias; assim, os personagens são mantidos à meia-luz, símbolo do que se tornou a vida do protagonista.

A resolução rápida do primeiro ensaio à aventura abre a possibilidade de uma nova missão, dessa vez encabeçada por sua filha, Madeleine, que se junta à Pooh, Tigrão, Ió (conhecido anteriormente como Bizonho) e Leitão para ajudar Christopher a garantir o seu emprego. Neste ponto, o filme altera seu tom, assumindo-se como uma diversão infantil: seu caráter reflexivo é mudado para a preocupação de uma resolução prática ao problema apresentado, o que move todos os personagens em torno de tarefas que, uma vez cumpridas, culminarão no clímax.

Embora conceda passagens divertidas, esta escolha narrativa levanta o já destacado problema conceitual. Sem ater-se exclusivamente a uma ideia, o roteiro não consegue ultrapassar a mediocridade para entregar uma obra que seja, de fato, relevante.

Ainda assim, é capaz de arrancar sorrisos pela interação dos animais, tão bem delineados. Somando a tristeza constante de Ió, a ansiedade de Leitão, a impulsividade de Tigrão e a amorosidade e fidelidade de Pooh, têm-se um amplo escopo das complexas emoções presentes em todos os seres humanos – e o fato de eles enxergarem como essencial estarem juntos para novas aventuras não deixa de ser uma bela mensagem.

 

Pôster

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica

 

Ano: 2018

Duração: 104 min

Gênero: aventura, comédia, animação

Direção: Marc Forster

Elenco: Ewan McGregor, Hayley Atwell, Mark Gatiss, Bronte Carmichael

 

Trailer:

 

 

Imagens:

 

Avaliação do Filme

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