Por Luciana Ramos

 

Nos Estados Unidos, usa-se o termo “pós-racial” para descrever a sociedade nos dias de hoje, alcunha que representa a ideia da superação de discriminação que usa a cor da pele como desculpa. Conflitos recentes (sejam de ordem política ou entre a comunidade negra e a força policial) põem em xeque tal adjetivação, expondo de forma recorrente os mecanismos do racismo.

Neste cenário de aparente harmonia e liberalismo, o comediante Jordan Peele tece seu terror satírico, trabalho autoral que escreve e dirige. Para isso, usa como base a premissa do clássico “Adivinha Quem Vem Para Jantar?” e subverte-a, incutindo o absurdo como ingrediente fundamental da trama.

 

 

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Esta explora o relacionamento entre Chris (Daniel Kaluuya) e Rose (Allison Williams), que já dura quatro meses. A intimidade decorrente a leva a convidá-lo para um fim de semana na casa de sua família. Porém, a perspectiva de ser o único negro no ambiente por um período tão extenso o deixa apreensivo e desconfiado.

Ao chegar no local, Chris é bem recebido e ouve as indelicadezas raciais aparentemente não notadas de Dean (Bradley Whitford) e Missy (Catherine Keener) com um sorriso no rosto, no claro intuito de agradar. Seu desconforto, no entanto, aumenta ao notar que os únicos negros ao redor, fora ele, são pessoas que trabalham nas dependências, mais especificamente o jardineiro e a empregada doméstica. Ainda mais estranho é o fato dos dois tratarem a todos com frieza, os olhos fixos no horizonte, sem nenhum indício de emoção.

Tal percepção piora em uma festa oferecida pelos pais de Rose, onde ele conhece mais pessoas afrodescendentes… todas claramente condicionadas a comportamentos robóticos. Os brancos, por outro lado, o tratam de forma afetuosa – e fazem comentários aparentemente simpáticos, mas intrinsicamente racistas. O senso de sobrevivência de Chris alerta-o que há algo de muito errado em todo esse cenário. Cabe a ele arranjar um modo de deixar o local antes que seja tarde.

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Essencialmente um terror psicológico, o filme preocupa-se menos em arrancar sustos furtivos do que em construir uma ambientação angustiante e estranha que leve não só o protagonista mas como também os espectadores a questionarem as circunstâncias reais daquele microcosmo.

 

Neste sentido, o caráter absurdo de algumas construções narrativas serve tanto para alocar a obra no patamar do humor quanto para servir de ferramenta metafórica para explorar o tema. A fundamentação do racismo é tão absurda quanto a condição com que Chris se depara e, assim, torna-se crível, pois permite a elucidação sobre os seus mecanismos de funcionamento: reducionismos, subserviência, falsa percepção de superioridade, entre outras “justificativas” nefastas.

Transitando entre todos esses elementos, “Corra!” mostra-se mais complexo do que sua aparência inicial, além de incrivelmente envolvente e bem humorado. Seu caráter subversivo é fruto da quebra da expectativa decorrente da adoção de clichês narrativos, transfigurados em elementos de uma critica social assertiva. Um filme relevante, bem construído, simples e, ainda assim, refinado.

 

 

Pôster:

 

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Ficha técnica


Ano:
 2017

Duração: 104 min

Nacionalidade: EUA

Gênero: horror, mistério

Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford

Diretor: Jordan Peele

 

 

Trailer:

 

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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