Por Murillo Trevisan

 

Recheado de piadas sobre cultura pop e referências metalinguísticas, “Deadpool”, com seu humor pouco refinado, trouxe um frescor à já sentida fadiga dos filmes de super-heróis, que utilizam reiteradamente a mesma fórmula narrativa. O sucesso absoluto e inesperado da produção – que arrecadou mais de US$ 783 milhões no mundo todo e se tornou a quarta maior bilheteria da 20th Century Fox – garantiu uma sequência. Apostando em uma trama ligada por elementos afetivos, o segundo filme ganha substância e introduz uma versão mais “sensata” do personagem sem perder a sua característica principal, o deboche.

Assim como o antecessor, “Deadpool 2” começa com uma cena de ação, seguida por um depoimento do mercenário tagarela prometendo contextualizá-la, o que culmina na estruturação do primeiro ato como um grande flashback. A ligação afetiva aqui desenvolvida ajuda o protagonista a simpatizar com o adolescente Russell (Julian Dennison), em perigo por ser caçado por Cable (Josh Brolin), um mutante que veio do futuro disposto a resolver conflitos pessoais.

Afim de protegê-lo, Wade Wilson busca ajuda de outros mutantes e funda a X-Force, nome propositalmente derivativo que brinca com o sexismo de outra propriedade intelectual da Marvel, os X-Men. Junto aos novos membros, Deadpool irá usar as habilidades do grupo para combater Cable, ao mesmo tempo em que irá apelar para o seu sentimentalismo na tentativa de dissuadi-lo do seu propósito.

Essa construção narrativa revela a intenção dos roteiristas Rhett Reese, Ryan Reynolds e Paul Wernick de conceder um nível maior de profundidade do que o primeiro filme: neste, os objetivos de todos os personagens são bem delineados e embasados em torno do afeto familiar, algo que serve para humanizar não só o protagonista como também o antagonista, mais próximo de um anti-herói do que vilão.

Em contraponto, há o exagero das inserções cômicas auto referenciais. O recurso já havia sido utilizado em abundância na primeira produção e sua repetição, em especial pela similaridade de várias piadas (como as envolvendo “Lanterna Verde” e “Wolverine”, outros filmes com Ryan Reynolds), não deixam de causar certo cansaço. Este sentimento é potencializado pela regionalidade de alguns diálogos, essencialmente apelativos ao público americano e que não se conectam tão bem aos espectadores brasileiros.

Os eventuais problemas de roteiro são suavizados pelo ritmo dinâmico, conseguido pela fluidez com que cenas de comédia e ação se alternam. Estas sequências, por sua vez, revelam uma grande evolução visual entre o primeiro e o segundo filme, algo não só atribuído à maior investimento no projeto como também à competência do diretor David Leitch, que opta pelo uso mais expressivo de efeitos práticos (embora o uso de CGI esteja bastante presente e aparente) e coreografias muito bem ensaiadas.

Outro ponto positivo é o papel feminino na produção: as críticas ao uso acessório de Vanessa em “Deadpool” são parcialmente sanadas, já que, embora possua pouco tempo de tela, seu papel é fundamental no desenrolar da história. Já Domino, com seu estranho superpoder da sorte, garante maior protagonismo na obra pelo carisma e timing cômico de Zazie Beetz (“Atlanta”), que consegue extrair o melhor de sua personagem. Neste sentido, cabe ressaltar que o principal fator que faz a sequência funcionar é a atuação de Ryan Reynolds que, com suas caras, bocas e diferentes entonações, concede o tom do filme, agora um trabalho mais difícil por apurar um espectro mais amplo de sentimentos.

Wade Wilson, com a peculiar combinação de um câncer incurável e a (posterior) imortalidade, agia como se não tivesse nada a perder. O novo filme do mercenário tagarela poe essa certeza à prova, tornando-o vulnerável e passível a malefícios físicos e emocionais. Esse maior investimento narrativo, complementado pelo apelo popular do humor auto referente e um apreço visual, torna “Deadpool 2” uma experiência prazerosa que, de maneira inteligente, ainda abre espaço para uma nova franquia, baseada na união dos poderes dos membros da X-Force.

 

Pôster

 

 

Ficha Técnica

Ano: 2018

Duração: 119 min

Gênero: ação, aventura, comédia

Direção: David Leitch

Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Zazie Beetz, Morena Baccarin

 

Trailer:

 

Imagens:

Avaliação do Filme

Veja Também:

A Paixão Segundo G.H.

Por Luciana Ramos   Publicado em 1964, “A Paixão Segundo G.H.” foi há muito considerado um livro inadaptável, dado o...

LEIA MAIS

O Menino e a Garça

Por Luciana Ramos   Aos 83 anos, Hayao Miyazaki retorna da aposentadoria com um dos seus filmes mais pessoais. Resvalando...

LEIA MAIS

Zona de Interesse

Por Luciana Ramos   O primeiro minuto de exibição de “Zona de Interesse” é preenchido por uma tela em preto...

LEIA MAIS