Por Luciana Ramos

 

O abatido Martin (Mad Mikkelsen, excelente no papel) parece rastejar nos corredores do colégio onde trabalha e, durante as aulas, perde-se em pensamentos desconexos. Seu método de ensino é contestado pelos alunos, ávidos pela graduação e a promessa de futuros brilhantes. Há muito que o professor de história não sente entusiasmo pela vida, algo notado tanto pela sua mulher (com quem não consegue dialogar) quanto pelo seu grupo de amigos, que parece achar que a melhor forma de o confortar é recordar como Martin foi descolado no passado.

Em comum, Peter (Lars Ranthe), Tommy (Thomas Bo Larsen) e Nikolaj (Magnus Millang) sentem o peso das responsabilidades adultas nas costas, um esvaziamento da alegria de viver. Assim, os quatro homens de meia-idade decidem lançar-se em um experimento: tomando como base a teoria (não respeitada em meios acadêmicos) de Finn Skarderud, que diz que o ser humano nasce com um déficit etílico de 0,05% no corpo, devendo repô-lo diariamente, eles decidem estudar o impacto do álcool em suas vidas. Para isso, precisam beber com constância e controlar seus efeitos por meio de bafômetros portáteis o que, teoricamente, anularia os impulsos selvagens da adicção.

Tomados pela alegria ébria, os quatro despem-se das suas inibições e inseguranças, melhorando suas conexões com os alunos e aprendendo a usufruírem mais do dia a dia. Empoderados pelos efeitos positivos, eles decidem aumentar gradativamente o experimento, testando os seus limites físicos e psicológicos, brincando com a arquitetura de suas vidas.

Debruçando-se sobre a cultura do álcool no seu país natal, a Dinamarca, Thomas Vinterberg trabalha os diferentes ângulos do tema, construindo uma narrativa tão eficiente quanto às de seus filmes anteriores, como “A Caça” e “A Comunidade”, mas de caráter mais equilibrado. Por meio da experiência de personagens comuns, o diretor discorre sobre o componente celebratório das bebidas, o seu uso social (em especial, como ritual de passagem) e o seu fator destrutivo. Entre os dois polos, desenvolve-se uma tensão fina e pautada pela intenção dos seus usuários de domarem o álcool, de permanecerem em controle de seus impulsos.

Neste sentido, a cena em que Martin decide parar de beber, mas recai após ver os amigos embriagados e felizes, mesmo que isso potencialmente lhe custe sua família, descreve sutilmente o infindável embate que se coloca com o uso recorrente de bebidas alcoólicas. Também aqui cabe a comparação entre o tom pesaroso do terceiro ato e sua contraposição com a belíssima cena final, que recoloca a questão como um pêndulo que se pode se mover para um lado ou outro de maneira violenta. Nesta, o diretor reapresenta a embriaguez descompromissada dos adolescentes que abre o filme, mas a ressignifica diante do conhecimento do público sobre o potencial corrosivo do álcool a partir da imersão nas jornadas de Martin, Peter, Tommy e Nikolaj.

Ambas as sequências são balizadas pela validação social da embriaguez, presente em outros inúmeros pontos do filme. Em uma interessante cena, o protagonista, levemente bêbado, redescobre como conversar com sua mulher e decorre de forma descontraída observações sobre o filho e o trabalho, sem o peso do enfado de antes. Um leve corte apresenta o horário-limite do consumo etílico e a cena, quando retomada, mostra uma ruptura no diálogo, o retorno da desconexão e o tom desaprovador da esposa, indicando a Martin que sua melhor versão requer o consumo de bebidas.

Este argumento preenche toda a narrativa, da leniência com que o professor ouve um aluno menor de idade relatar que toma cerca de cinquenta doses de drinques diferentes por semana ao tom romântico com que este se defere a figuras públicas notoriamente alcóolatras. De forma mais pungente, há, em determinado ponto, a inserção de vídeos com diversos líderes mundiais nitidamente bêbados e seus acompanhantes rindo jocosamente (ainda que talvez julgando em segredo), representações do encorajamento e aceitação do descontrole.

Embora de potencial tão nocivo quanto outras drogas, o uso do álcool é enquadrado como uma expressão cultural não exclusiva à Dinamarca (no Brasil, por exemplo, há a inofensiva cervejinha). Os malefícios, quando apontados, referem-se à utilização abusiva que acarreta transgressões de regras sociais, pautando a discussão na consequência ao invés da causa. “Druk: Mais Uma Rodada” evita a cilada da superficialidade a partir de uma construção argumentativa complexa e em camadas, que apela tanto para o engajamento emocional – por meio de personagens carismáticos e falhos – quanto para a reflexão. Ainda há espaço para abordar o redescobrimento da vida em toda sua pujança e beleza, além da importância da amizade nos bons e maus momentos.

Transitando com sutil assertividade entre opostos, Vinterberg brinca com a câmera, contrastando a fluidez dos planos ébrios em movimento com a rigidez do cotidiano tedioso. A iluminação completa o panorama, explorando sombras duras e optando por deixar os personagens principais, quando carentes da verve de viver, no escuro…até o momento em que se abrem para o mundo novamente. São construções inteligentes que denotam o talento de um dos cineastas mais interessantes da atualidade, que trocou o experimentalismo do “Dogma 95” por narrativas mais conservadoras, mas igualmente ricas e, quiçá, mais equilibradas e maduras.

 

Esta crítica faz parte da cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de SP

Ficha Técnica

Ano: 2020

Duração: 117 min

Gênero: drama, comédia

Direção: Thomas Vinterberg

Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Magnus Millang, Lars Ranthe

Avaliação do Filme

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