Por Luciana Ramos

Embora haja uma notável convergência entre literatura e cinema ao longo da história, certas obras parecem querer escapar da transmutação para a linguagem de imagem e som proposta pela sétima arte. São inúmeros os exemplos de livros colossais ou densos demais que perdem sua relevância em filme – do famoso fracasso de Brian de Palma ao adaptar “A Fogueira das Vaidades” ao recente “O Pintassilgo”.

Dentre os mais notórios casos está “Duna”, que já aterrorizou Alexander Jodorowsky e permanece como uma mancha não tão idônea na carreira de David Lynch. Foi exatamente a obra que Dennis Villeneuve escolheu ao receber seu cheque em branco de Hollywood.

Seu primeiro passo na adaptação foi olhar para o passado na experiência dos seus colegas de profissão e compreender que é impossível a construção de um universo a passos galopantes e elipses temporais. Sua adaptação do grande livro de Frank Herbert, portanto, permite-se ser vagarosa e contemplativa, calcificando conceitos e personagens a doses lentas e minunciosamente explicadas.

Assim, ao mesmo passo em que se mostra bem mais ambicioso (pois declara a intenção de ser uma trilogia e, por isso, depende de bons resultados na bilheteria) também se revela mais competente. O espectador assume sem restrições o olhar de Paul (Timothée Chalamet), filho do conde da Casa Atreides que passa por profundas mudanças após seu pai (Oscar Isaac) ser escolhido pelo Imperador para assumir o controle do planeta Akkaris.

Nele imbui-se a ignorância das maquinações políticas que regem a estrutura dessa história interplanetária, além de reservas existenciais condizentes com a jornada do herói – com direito a dois mentores, Gurney Halleck (Josh Brolin) na parte militar, e sua mãe, Lady Jessica (Rebecca Fergunson), na parte espiritual. É através da sua vivência e das visões premonitórias que ainda não aprendeu a controlar que sentimos o clima de Akkaris, da sua aridez sufocante ao desespero do seu povo.  

Os problemas do planeta encaixam-se na descrição de um universo distópico circundado a partir da escassez de recursos que impõe sérias restrições à vida humana. Neste quadro, Akkaris aparece tanto como um lugar inóspito quanto um potencial de riqueza, dada a mescla rara de especiarias a sua característica areia (uma retomada de Herbert ao elemento central das primeiras disputas entre países na época das Grandes Navegações). O controle do ambiente prescinde da imposição do Imperador, figura somente citada no primeiro filme. Quando a Casa Harkonnen é substituída pela Atreides em prol de uma suposta integração de povos (incluindo os marginalizados Fremen), a preterida decide atacar o local para recuperá-lo e exterminar o inimigo.

De forma súbita, Paul é forçado a lutar pela sua vida e compreender o tecido social que o engloba. Além de ser filho do Conde, ele é apontado por muitos como o ser prometido que vai salvá-los, dado ao fato de sua mãe ser uma Bene Gesserit, casta de mulheres treinadas em controle psíquico e, por isso, cunhadas como feiticeiras. 

Como se vê, essa é uma história ampla e complicada, mas Villeneuve prova saber muito bem do valor de uma construção sólida para atrair e reter o engajamento emocional do público. Dessa forma, conforme já citado, ele detém-se na explicação dos mínimos detalhes da trama para evitar confusões. Como sabido, cada escolha deriva em uma consequência e, no caso de “Duna”, transmuta-se em uma vagarosidade excessiva que pode ser facilmente interpretada como marasmo. São poucas as cenas de ação, apenas condensadas no terceiro ato, e demasiadas passagens indicativas de um futuro aventureiro. Tal como o primeiro longa da trilogia “Senhor dos Aneis”, a nova adaptação da história de Herbert consegue instigar a curiosidade pelo desdobramento da trama em filmes posteriores, mas é mediana enquanto obra independente.

O mais curioso nisso tudo é a opção do diretor em afastar-se da pasteurização de grandes épicos e blockbusters, apostando em uma estética extremamente ousada. “Duna” repele os rococós característicos em detrimento de uma direção de arte minimalista, que usa modelagens geométricas como base na criação de palácios e naves. Cabe aqui também um aceno à homenagem aerodinâmica dos tópteros (helicópteros) às asas das libélulas.

A ousadia resvala também na fotografia, pautada em sobras duras. A oposição entre clareza e escuridão é potencializada pelos figurinos, já que os personagens vestem-se em tons semelhantes aos fundos, mesclando-se a eles. Já a trilha sonora dispensa grandes construções orquestrais, apostando em coros e tambores para criar uma complementação sonora direta às ações dramáticas, dando o tom certo a cada cena. Mais hermética e menos emotiva, aproxima-se das criações de Phillip Glass e, assim, configura-se como uma inovação de Hans Zimmer.

Mais longo que o desejado, “Duna” exige paciência do espectador, prometendo-lhe entregar algo grandioso e épico nos filmes vindouros, porém consegue se regozijar com uma estética desafiadora e grande elenco. Além de conquistar adeptos da obra original, o filme destina-se aos amantes de arte de qualidade, que certamente apreciarão a homenagem de Dennis Villeneuve ao cinema espetáculo.

Ficha Técnica

Ano: 2021

Duração: 2h35m

Gênero: ficção científica, ação, drama, aventura

Direção: Dennis Villeneuve

Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Fergunson, Zendaya, Josh Brolin, Jason Momoa, Stellan Skarsgard, Dave Baustista, Oscar Isaac, Javier Bardem

Avaliação do Filme

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