Por Murillo Trevisan

Acompanhando as mudanças sociais da Revolução Industrial e o decorrente crescimento da atuação da força policial nas ruas, as histórias de crime caíram no gosto popular por convidar cada espectador a ser um participante ativo do misterioso jogo de culpabilidade. Centradas geralmente na figura de um detetive cuja percepção astuta o deixa sempre um passo adiante dos demais, as histórias carregam como principal apelativo as nuances de seus personagens, explorando, através das suas motivações obscuras e comportamentos suspeitos, a complexidade humana.

Naturalmente, o cinema apossou-se de tal construção narrativa, seja na forma de adaptação de material literário sedimentado, como “O Assassinato no Oriente Express” ou os contos de Arthur Conan Doyle envolvendo Sherlock Holmes, ou na criação de tramas inéditas, caso do brilhante “Se7en”. Pautado expressivamente no despertar da curiosidade do público e sua consequente disposição em coletar pistas para desvendar o caso apresentado, este tipo de filme perdeu espaço nas últimas décadas para produções tão grandiosas quanto palatáveis, cuja única exigência é a sua apreciação passiva.

Felizmente, alguns diretores como Rian Johnson ainda se dispõem ao laborioso trabalho de costurar um roteiro a partir dos elementos essenciais do gênero, domínio demonstrado em “Entre Facas e Segredos” pela inclusão de pequenas subversões no corpo tradicional da narrativa. Esta é focada nos acontecimentos em torno da comemoração do aniversário de 85 anos de Harlan Thrombley (Christopher Plummer), escritor de sucesso que é descoberto morto na manhã do dia seguinte. A atribuição de suicídio ao caso instiga a curiosidade do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), que se junta à investigação do detetive Elliot (Lakeith Stanfield) após o recebimento de um envelope anônimo contendo dinheiro. Ao lançar-se sobre a reconstituição dos fatos, ele observa detalhes inverossímeis que o leva a convidar os membros da família a comparecerem para novo depoimento.

A lista de suspeitos não poderia ser mais variada: há Linda (Jamie Lee Curtis), filha do magnata que se gaba de, como ele, ter obtido sucesso por esforço individual; seu marido Richard (Don Johnson), sempre apto a fazer pequenos comentários maliciosos sobre seus parentes; Ransom (Chris Evans), filho do casal odiado pelos demais; Walt (Michael Shannon), filho de Harlan e responsável por gerir sua editora e seu filho Jacob (Jaeden Martell), adolescente de aspirações supremacistas que passa o dia no celular; Joni (Toni Colette), a nora que, após a morte do marido, criou um império de beleza e sua filha Meg (Katharine Langford), estudante universitária feminista que advoga por causas sociais.

Diante da quantidade de possíveis assassinos, Blanc recruta a ajuda de Marta Cabrera (Ana de Armas), enfermeira do falecido que é tratada pelo detetive de forma mais condescendente por carregar uma característica bastante exótica: a impossibilidade de mentir e não vomitar em seguida. É exatamente a inclusão dessas pequenas idiossincrasias que torna a experiência de assistir ao filme tão divertida, já que acrescenta às revelações dos segredos de cada personagem uma boa dose de hipocrisia.

Não obstante, Johnson renova os mecanismos da sedimentada narrativa ao apresentar a cronologia verídica dos acontecimentos logo ao início, transformando o espectador em cúmplice da jornada investigativa que tem como alicerce não a resolução do crime em si, mas a exploração da hipocrisia daquele microcosmo. Ao atribuir características tão distintas aos integrantes da família Thrombley e os colocar em conflito, o diretor ainda aproveita a oportunidade para propor pequenos debates sobre temas atuais, como imigração, sempre a partir de uma vertente crítica que expõe a dissonância entre a fala dos personagens e seus comportamentos.

A apreciação das interações é potencializada pela sintonia do competente elenco, em que se destacam as atuações de Daniel Craig (com um sotaque peculiar que lembra Poirot) e Ana de Armas, ambos indicados ao Globo de Ouro por suas performances.

Inteligente, intrigante e um tanto ácido, “Entre Facas e Segredos” consegue magistralmente reter o engajamento do público, que participa ativamente do jogo de quebra-cabeças onde as peças reveladas devem ser remanejadas para obtenção de um entendimento mais claro dos acontecimentos. Espertamente, a produção conclui o mistério sem fechar as portas para uma continuação com o detetive Benoit Blanc que, pelo visto, ainda terá muitos casos para desvendar.  

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 130 min

Gênero: Comédia, Crime, Drama

Diretor: Rian Johnson

Elenco: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, LaKeith Stanfield, Christopher Plummer, Katherine Langford, Jaeden Martell

Avaliação do Filme

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