Por Melissa Vassalli

“Eu Não Sou Uma Bruxa” é o primeiro longa-metragem da jovem diretora Rungano Nyoni e lhe garantiu um prêmio BAFTA na categoria Melhor Filme de Estreia, em 2018. Nascida na Zâmbia e radicada na Inglaterra, Nyoni regressou ao seu país de origem para contar uma história pungente e perturbadora. No filme, depois de um incidente banal em sua vila, a pequena Shula (Maggie Mulubwa), uma órfã de 8 anos, é acusada de bruxaria. Após um rápido julgamento, que inclui um ritual feito por um feiticeiro “especialista em bruxas”, trazido por Sr. Banda (Henry B.J. Phiri), uma autoridade local, a garota é considerada culpada e é levada em custódia pelo Estado, sendo exilada para um campo de bruxas no meio do deserto, onde ela irá aprender as regras da sua nova vida – a principal delas é a lenda de que se escolher fugir, será transformada em cabra.

O enredo do filme poderia servir como uma metáfora para as condições em que muitas mulheres vivem ao redor do mundo, subjugadas às escolhas de terceiros, seja a família, o Estado ou o poder religioso, sem o direito de decisão sobre seus próprios destinos. Mas em alguns países da África de fato mulheres são acusadas de bruxaria e precisam viver reclusas em acampamentos, o que dá ao filme de Nyoni um tom de denúncia.

Mas, para além disso, a diretora opta por misturar tradições de países diferentes e inventar algumas outras, como o carretel preso ao corpo das bruxas, que determina o limite que podem se afastar do acampamento. Assim, a narrativa ganha também elementos poéticos, e fica no limite entre um filme político e uma​ fábula amarga.

Com um elenco formado principalmente por não atores, Maggie Mulubwa é um dos maiores destaques do longa. Shula quase não fala e aceita a vida imposta a ela, mas seu olhar, carregado de medo e perplexidade, traz uma fagulha de resistência.

Há uma decisão deliberada do roteiro de não mostrar o passado de Shula, que recebe este nome de uma bruxa anciã. A palavra significa “desenraizada”. Deslocada, tudo parece estranho aos olhos da menina, seja o deserto onde fica o acampamento das bruxas, que, apesar de sua imensidão, funciona ironicamente como uma prisão, seja a cidade, que a menina passa a frequentar após ser escolhida pelo Sr. Banda para realizar julgamentos e outras atividades determinadas, o que toca na questão do abuso infantil.

Ela e as demais bruxas também são exploradas comercialmente, como quando a menina é levada para um programa de TV, ou quando é exposta aos turistas. Talvez essa seja uma das sátiras mais difíceis de assistir, já que a nossa condição como espectadores do filme se assemelha aos turistas que passam, olham, mas nada fazem diante da realidade que presenciam.

Mantendo sempre o tom absurdo da história, Nyomi nos mostra como nossa liberdade é frágil e pode ser rapidamente extinta diante do julgamento dos outros, principalmente se você for uma mulher. Mas expõe também a solidariedade e resiliência daquelas que se encontram em uma situação de injustiça e deixa uma importante lição para os tempos em que vivemos.

Ficha Técnica

Ano: 2017

Duração: 93 min

Gênero: drama

Diretor: Rungano Nyoni

Elenco: Margaret Mulubwa, Henry B.J. Phiri, Gloria Huwiler, Travers Merrill

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

Veja Também:

Matrix Resurrections

Por Luciana Ramos   Nos anos 90, sedentos por materiais originais, os grandes estúdios viram a profusão de produtoras independentes...

LEIA MAIS

Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa

Por Luciana Ramos Nos já distantes anos 2000, em meio à renovação das narrativas de super-heróis, a Sony Pictures investiu...

LEIA MAIS

A Disputa do Natal

Por Luciana Ramos   O documentário “A Disputa do Natal” começa leve, propondo contar a história de Jeremy Morris, um...

LEIA MAIS