Por Luciana Ramos

 

Por vezes um assunto torna-se tão interessante que promove a criação de mais de um filme sobre ele, seja com anos ou apenas alguns meses de separação. A vida da excêntrica Florence Foster Jenkins é exatamente o caso: já tendo rendido varias adaptações cinematográficas e teatrais, inspirou recentemente duas obras de cunho completamente diferentes, a francesa “Marguerite” e a inglesa “Florence: Quem é Essa Mulher?”.

Ao passo que a primeira usa os eventos principais da socialite para tecer uma sátira social cruel, a segunda constrói-se na tragicomédia, costurando o riso do absurdo com um certo tom de afetuosidade em relação aos defeitos da protagonista.

 

Tal movimento é fruto da capacidade do diretor Stephen Frears de achar a humanidade em seus personagens, tornando-se capaz de suscitar em seus espectadores extrema compaixão por estes, feito observado em “Philomena”, por exemplo.

Com piadas elaboradas e referências à época escolhida para seu retrato, o ano de 1944, a trama exibe com leveza a peculiaridade de Florence, nova-iorquina extremamente rica que se devota ao patrocínio da música, sua maior paixão. Sua entrega ao assunto a faz promover pequenos recitais para membros de suas entidades, onde alegra-se em cantar clássicos da ópera.

Seriam perfeitas oportunidades de prestar homenagem ao poder encantador da arte, não fosse um problema: Florence é absolutamente incapaz de acertar qualquer nota. De fato, uma gritaria incômoda preenche os ambientes toda vez que abre a boca. Ela, entretanto, não tem nenhuma noção da sua falta de talento. Um misto de inocência e completa ausência de autocrítica, acredita realizar performances incorrigíveis. Tal nível de cegueira e ignorância de si mesma a torna cômica por ser trágica e vice-versa.

 

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O absurdo é perpetuado, visto o fato de que ninguém ousa lhe dizer a verdade, seja por excesso de polidez, como o caso do seu pianista, Cosmé McMoon (Simon Helberg), ou pela proteção do seu marido St. Clair Bayfield (Hugh Grant), o que a transforma em uma excentricidade a ser tolerada. Porém, ela arrisca-se mais do que deve quando planeja fazer um grande espetáculo no Carnegie Hall.

A partir dessa situação específica é que a trama se desenrola, alternando a progressão dos preparativos à exposição da peculiaridade do seu casamento com St. Clair, que discretamente vive com outra mulher, Kathleen (Rebecca Fergunson). Há ainda o conflito moral e artístico do pianista Cosmé, cuja incapacidade de se impor duela com sua ambição artística de não ser atrelado a uma cantora tão sofrível.

Sem surpresas ou densidade crítica, “Florence: Quem é Essa Mulher?” pauta-se no elo emocional com cada um dos personagens principais para arrancar o riso fácil e, assim, fornecer um entretenimento puro, porém inteligente.

 

Ainda que a fantástica reconstituição de época mereça destaque, o trunfo real do filme está na capacidade de Frears em conceder espaço aos seus atores para que estes possam preencher seus personagens com nuances enriquecedoras. Em resposta, Hugh Grant oferece uma das melhores performances de sua carreira com expressões faciais que denotam uma devoção genuína. Simon Helberg é outro destaque, transitando entre a caricatura e o realismo para combinar altos níveis de ansiedade a uma certa inocência imatura.

Como de costume, a estrela que brilha mais alto é Meryl Streep, uma atriz tão boa que consegue convencer que é péssima. A sua atenção aos detalhes, dos maneirismos de postura à competência com que explora os sentimentos da sua protagonista, traduz-se em uma atuação completamente cativante.

O novo longa de Stephen Frears contrapõe com graça e humor dualidades, como o amadorismo x profissionalismo e a fantasia x a realidade sem nunca perder a afetuosidade, que se estende da dinâmica dos personagens em tela à sua relação com o público. Simples em abordagem, não oferece camadas narrativas a serem exploradas, mas prova-se eficiente em revelar o humor intrínseco ao absurdo.

 

Ficha técnica florence poster


Ano:
 2016

Duração: 110 min

Nacionalidade: Inglaterra

Gênero: comédia, drama

Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Fergunson

Diretor: Stephen Frears

 

Trailer:

 

 

Imagens:

 

Avaliação do Filme

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