Por Luciana Ramos

Quando tomou conhecimento do livro onde um policial negro reconta os meses em que se infiltrou na Klux Klux Klan durante os anos 70, Jordan Peele imediatamente pensou na sua versão cinematográfica. Mesmo tendo atingido reconhecimento na indústria por “Corra!”, ele não se achava adequado para dirigir: tratava-se de um tema espinhoso que necessitava alguém afiado o bastante para cutucá-lo a fundo. Pensou então em Spike Lee, que adotou o projeto e o imbuiu com sua identidade, reconhecível nas linhas gerais do roteiro e, particularmente, em passagens pungentes, que propositalmente provocam o desconforto – um instrumento de reflexão do seu cinema.

O seu discurso começa com a escolha de abrir o filme com uma longa tomada de grua onde Scarlett O’Hara caminha entre homens feridos na Guerra da Secessão, para então mostrar a bandeira dos Confederados. Cabe lembrar que, no ano passado, algumas cidades do Sul, pela primeira vez em quase setenta anos, se negaram a exibir “E O Vento Levou…” em sessões comemorativas de verão, um tardio aceno ao seu caráter racista. Complementa-se à essa cena imagens fragmentadas de “O Nascimento de Uma Nação”, uma das obras mais nojentas já produzidas pelo cinema, mas que continua exaltada pelo seu caráter inovador.

Juntando estas passagens ao discurso odioso de um homem, interpretado por Alec Baldwin, Lee nos lembra que o racismo é uma construção histórica e social de subjugação, abraçada por mecanismos como o próprio cinema. Este tipo de retórica simboliza todo o seu cinema, que perpassa o embate entre raças, os dilemas sociais e éticos do povo negro e, acima de tudo, a valorização de sua imagem, simbolizada em “Infiltrado na Klan” pelas belas justaposições de rostos atentos ao discurso do Pantera Negra Stokely Carmichael, rebatizado Kwane Ture.

Ao invés de um embate direto e violento, o diretor investe na construção gradual de uma oposição que ascende até culminar em um final tão imensamente triste, capaz de arrancar lágrimas. O filme termina com um soco no estômago mas, até o terceiro ato, caminha suavemente, mesclando os aspectos espinhosos do tema com muito humor escrachado típico aos filmes blaxploitation.

O espectador é convidado a assistir à representação ficcional “de umas paradas que rolaram mesmo” e observa com um misto de encanto e temor a audácia do jovem policial Ron Stallworth (John David Washington), primeiro homem negro na força, que um dia liga para a KKK e se oferece para integrar a “organização”. Obviamente, ele não poderia ir aos encontros presenciais e passa a dividir o disfarce com Flip Zimmerman (Adam Driver), detetive que, por ser judeu, também corre perigo.

A operação, embora caminhe bem, é vista com desconfiança pelos altos escalões da polícia, que classificam este grupo como “não-violento”. Seus interesses estão muito mais voltados para as reuniões dos Panteras Negras, temerosos da tão clamada revolução, um sinal claro de como uma percepção racista contamina o julgamento do ambiente ao redor.

Por meio do relacionamento com Patrice (Laura Harrier), Ron passa a questionar sua identidade enquanto homem negro, tanto o seu pensamento pacifista como no seu desempenho em um trabalho tão ojerizado pelos seus “irmãos”. Nestas passagens, aprofunda-se a delicada questão da violência policial, escancarada quando ele próprio sente o gosto amargo do preconceito.

O humor é trabalhado tanto no absurdo da situação, como no contraponto entre a inteligência e confiança excessiva do protagonista com a completa estupidez dos membros da “organização”. O retrato desses personagens como completos idiotas ressalta o caráter injustificável e irracional do preconceito e funciona muito bem como ferramenta de escárnio. Nas suas bocas, aparecem por vezes frases de efeito relacionadas ao presidente americano, uma aproximação provocadora que Lee arremata com sua imagem, ao final, relativizando a história de violência contra os negros americanos.

Em “Infiltrado na Klan”, Spike Lee mostra excelente domínio da linguagem cinematográfica, sendo este talvez o seu melhor trabalho. Ao começo, instiga o engajamento do público com a lembrança de que os eventos surreais descritos possuem embasamento histórico. Ele conduz a narrativa com muito humor, apostando no grande carisma de John David Washington (filho do ator Denzel Washington), que assimila todos os pontos de debate apresentados, servindo como um guia para o olhar do público, que torce pelo seu sucesso.

Aos poucos, troca o tom cômico por uma atmosfera de suspense, mostrando que mesmo os estúpidos, quando violentos, podem ser extremamente perigosos. É então que chega ao clímax, onde contrapõe o discurso racista de David Duke (Topher Grace) ao relato de um velho senhor negro que testemunhou inúmeros abusos durante sua vida, um excelente uso da retórica que preparará o terreno para a passagem da ficção para filmagens documentais da passeata de Charlottesville. O ódio inflamado e sem vergonha que permeia a sequência final proporciona um sabor amargo, um doloroso aceno de que a questão do racismo está, infelizmente, muito longe de ser superada.

*Filme assistido como parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema Internacional de SP

 

Pôster

 

Ficha Técnica

Ano: 2018

Duração: 135 min

Gênero: biografia, comédia, crime

Direção: Spike Lee

Elenco: John David Washington, Adam Driver, Alec Baldwin, Isiah Whitlock Jr., Robert John Burke, Topher Grace

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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