Por Luciana Ramos

Em meio aos (necessários) relatos cinematográficos de injustiças, pobreza e sofreguidão, Olivier Nakache e Éric Toledano decidiram construir uma carreira baseada em filmes edificantes, que lembrassem cada espectador da capacidade humana de praticar o bem. São obras sobre aprendizado e valorização das diferenças (“Intocáveis”), união e superação (“Samba”) ou mesmo desespero cômico (“Assim é a Vida”), histórias com vieses positivos que servem como escapismo, mas também emocionam ao ponto de provocarem reflexões.

Carregado do mesmo DNA, “Mais Que Especiais” despe-se do humor presente nas obras anteriores para se dedicar à construção de um olhar sensível sobre o autismo. A trama pauta-se na jornada real da dupla Stéphane Benhamou e Daoud Tatou, responsáveis por organizações voltadas para acolhimento de crianças e jovens que foram ignorados pelos demais órgãos públicos e, diante de suas orientações, conseguem adquirir independência e consequente inserção no mercado de trabalho. Isto vale tanto para pessoas com autismo em diferentes níveis quanto para jovens pobres que são treinados para exercerem o papel de cuidadores.

Realizando um trabalho social de profunda importância há quinze anos, eles – no filme Bruno (Vincent Cassel) e Malik (Reda Kateb) – nunca receberam alvará de funcionamento e, portanto, se viram diante de uma inspeção que ameaçava a interrupção abrupta das atividades, ponto de partida do filme. O roteiro então dedica-se a trabalhar nas duas frentes, equilibrando a tensão que paira sob suas cabeças com as pequenas situações do grupo de jovens abrigados pelas ONGs. No caminho, são pontuados pequenos dramas pessoais, como a incapacidade de desconexão de Bruno ou a falta de percepção de Dylan (Bryan Mialoundama) sobre o peso de sua responsabilidade, mas nenhuma subtrama é aprofundada de modo a interferir substancialmente na construção do arco dual.

Seguindo este molde narrativo conservador, o longa da dupla francesa manifesta em diferentes contextos o poder da dedicação ao próximo, oferendo luz a uma parcela da sociedade tradicionalmente negligenciada no cinema – ou pior, quando lembrada é estigmatizada. O trato aqui é delicado e avança em passos lentos (em ritmo muito semelhante à “Samba”), sendo cada conquista embalada com o devido sentimentalismo, o que, hoje em dia, não é nada ruim. Ao fundo, escala-se sutilmente o conflito sobre o futuro das instituições traçando-se, no caminho, uma crítica sobre a hipocrisia do poder público, imerso em burocracias, mas socialmente míope. Como se não bastasse, o longa ainda aponta a diversidade étnica e cultural da França ao destacar a amizade entre um judeu e um mulçumano, personagens-guias da obra.

O mais impressionante, no entanto, é a produção do filme, já que Nakache e Toledano optaram por usar não-atores que são, de fato, autistas para interpretarem os jovens acolhidos pelas ONGs. Como justificativa, eles apontam a preocupação em tratar o tema da maneira mais realista possível, de modo a evitar representações cartunescas ou desrespeitosas. A única exceção é Marco Locatelli, que interpreta Vincent, já que as cenas envolvendo seu personagem exigiam muito dramaticamente. Porém, cabe dizer que o ator foi escolhido por ter um irmão com a condição na sua forma severa, o que o permitiu uma interpretação fidedigna.

Com a intenção de respeitar o material e valorizá-lo ao máximo, os diretores optaram também por se desfazerem de virtuosismos estéticos, adotando a câmera na mão como base, escolha que ressalta o realismo ao mesmo tempo em que filtra o que há de importante em cada cena para o espectador.

“Mais Que Especiais” é um filme simples e esquemático, mas tocante. Seguindo uma cartilha clássica, opta por mostrar reiteradas situações que apontam para a capacidade humana de se doar, de ajudar e enxergar o outro; de torcer e valorizar cada superação, sentimentos edificantes que, em tempos tão tenebrosos, trazem conforto e esperança.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 114 min

Gênero: drama, comédia

Direção: Éric Toledano, Olivier Nakache

Elenco: Vincent Cassel, Reda Kateb, Hélène Vicent, Marco Locatelli, Bryan Mialoundama

Avaliação do Filme

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