Por Luciana Ramos

Manuela (Mônica Iozzi) é uma mulher forte, segura, independente, que ocupa uma posição de destaque na agência em que trabalha e mantém um relacionamento com um colega, embora este seja mais oscilante do que gostaria. Um dia, porém, passa mal e descobre estar grávida. Assolada por um carrossel de emoções, ela pondera sobre a viabilidade de um filho na sua vida, dado o fato que ela não possui um desejo irrefreável de ser mãe.

Seus questionamentos são apaziguados pelo posicionamento de Beto (Rafael Losso), que decide investir na criação de uma nova família com ela – de malas e cuia. A felicidade do início de uma nova (e desafiadora) jornada a leva a ignorar comentários maliciosos no trabalho que parecem maldizer sua condição e, por conseguinte, o seu gênero. No entanto, a vida lhe prega uma peça e Manuela se vê sozinha e grávida, mesclando a tristeza à insegurança do caminho que segue.

O seu filho, Joaquim, nasce, mas a conexão não é imediata. O cansaço parece esgotar todas as suas forças. A irritação em estar sozinha parece dirimir o potencial encanto em se tornar mãe. Não obstante, deve lidar com uma série de visitas e protocolos sociais para os quais não tem muita paciência. Amamentar também é um jogo difícil e sofrido. As horas de sono, curtas. Os intervalos para ir ao banheiro, menores ainda. Parecem faltar horas nos seus dias. Parece faltar o encanto que lhe foi vendido ainda menina em filmes, séries e livros, a plenitude da mulher que se torna mãe.

Renegando as construções sociais que atrelam a essência do feminino ao ideal de maternidade, o filme de Dainara Toffoli propõe-se ao desafio da composição de um panorama cru e, por isso, muito mais fiel do tema. Ter um filho já é exaustivo o suficiente sem as cobranças em torno de modelos de perfeição inatingíveis – ainda assim replicáveis em tom falso e superficial por inúmeras mulheres que abraçam tais valores como forma de auto validação em uma sociedade profundamente patriarcal. Ao fazê-lo, ajudam na perpetuação de estigmas e, portanto, no consequente sentimento de inadequação daquelas que sentem o devido peso da jornada maternal.

Cabe dizer que, como reafirmam inúmeras sequências do longa, as pressões não são unicamente provocadas por outras mães: estendem-se ao ambiente de trabalho, às conexões sociais, aos homens que não se acanham em fazerem comentários machistas, nos olhares da pediatra que julga a mãe por não estar presente, nos “pitacos” da rede próxima de familiares que se acha apta a decidir sobre questões fundamentais da criação de um bebê.

Cerceada por todos os lados, Manuela desenvolve um sentimento de culpa latente e incômodo. Como tantas mulheres, a personagem responde às cobranças cumulativas com inúmeros pedidos de desculpas, como se seus universos – trabalho e família – tivessem que ser excludentes e exigissem sua dedicação integral, algo perceptivelmente impraticável, mas, ainda assim, capaz de gerar uma profunda angústia.

Assim, a sua jornada é de busca por um equilíbrio de papeis, a harmonia entre o exercício da maternidade (com o gosto aprimorado aos poucos) e o do seu trabalho, que representa sua posição na sociedade, como se define e se afirma. “Mar de Dentro” é um belo e corajoso filme que retrata um tema essencial às mulheres de maneira nua e crua e, para isso, se vale da dedicação plena da atriz Mônica Iozzi, completamente entregue às emoções e corporalidades da sua Manuela.

*Essa crítica faz parte da cobertura da 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de SP

Ficha Técnica

Ano: 2020

Duração: 90 min

Gênero: drama

Direção: Dainara Toffoli

Elenco: Mônica Iozzi, Rafael Losso, Gilda Nomacce, Fabiana Gugli

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