Por Luciana Ramos

Incrivelmente frustrada, Anne (Olivia Colman) tenta explicar sua situação para o pai: ela está de mudança para Paris e precisa que ele coopere, que aceite uma cuidadora. Anthony (Anthony Hopkins) repete diversas vezes as mesmas indagações, referindo-se à decoração da sala, a filha já falecida (fato que esqueceu) e o relógio que teoricamente teria sido roubado pela enfermeira anterior; diz não precisar de ajuda, mas a sua instabilidade jorra em palavras.

Anthony está procurando seu relógio, acha que o marido de Anne o roubou. Só pode ter sido ele, visto que é um estranho. Embora o trate bem, o homem não consegue acalmar seu sogro, fazendo sua esposa retornar mais cedo para casa. O pai choca-se pela fisionomia da filha, não a reconhece. Pergunta do marido e da viagem, mas ouve que ela sempre foi solteira, perturba-se novamente com o relógio, com o sumiço do quadro, com a sua falta de coesão dos eventos.

Mergulhado em uma doença senil e debilitante, ele não consegue mais filtrar o que é real e o que não é, permanecendo em um fluxo constante de pequenas surpresas que se transformam em horrores pois deflagram a sua vulnerabilidade. Incapaz de ancorar-se na verdade, seus olhos absorvem a existência de maneira fluida e, portanto, não confiável. Ele vive no próprio horror e tenta infrutiferamente explicar suas questões à filha e aos demais rostos pouco familiares que o rodeiam.

Assim também é a narrativa de “Meu Pai”: uma corrente de pensamentos e experiências repetidas, porém com pequenas alterações que distorcem seus significados. As paredes oscilam entre o marrom e tons de azuis; o quadro da sala ora está lá, ora não; o jantar é servido à exaustão em diferentes dinâmicas, mas todas elas expõem o sofrimento do protagonista. A fim de combater sua instabilidade mental, Anthony busca por objetos confiáveis para descrever a realidade – o relógio, o frango, o quadro – mas a falta de solidez das suas memórias o trai.

Adaptado da peça de teatro de mesma autoria, o filme de Florian Zeller opta por retratar a demência senil através das sensações do protagonista em estágio avançado da doença, retirando as âncoras narrativas em grandes proporções, de forma a embaralhar o faro do próprio espectador, que se pergunta quais são os fatos na miríade de cenas confusas e, quase inutilmente, tenta montar uma cronologia coesa das ações.

Seu trabalho estende-se além das trocas e repetições de objetos de cena, já que permeia o trabalho de câmera que, em languidos movimentos, viaja pelos cômodos do apartamento reapresentando personagens e interações. As paredes são aos poucos contaminadas pelo azul, que marca a doença do protagonista e caminha até seu tom mais claro e vibrante. Não obstante, Zeller flerta com a troca de atores em papeis, trazendo uma nova camada de instabilidade à equação, a falta de reconhecimento físico.

Nesta viagem sensorial, destacam-se os trabalhos dos atores principais, Olivia Colman e Anthony Hopkins, que mergulham nos sentidos embutidos em cada diálogo para pontuarem as emoções de seus personagens. Em um patamar mais constrito (e adequado), Colman deixa escapar o acúmulo de pequenas frustrações de Anne com seu pai, o peso dos insultos, do esquecimento e da ausência: são as lágrimas esparsas mal notadas por ele ou pequenas expirações, é a paciência em repetir a mesma história diversas vezes, a capacidade amorosa em compreender a angústia dele.

Diametralmente oposta é a performance de Hopkins, que carrega o sentido do filme. Seu imenso talento, comprovado tantas vezes ao longo da prolífica carreira, transparece no modo como Anthony, o personagem, transita entre diferentes humores em curtos intervalos de tempo. Trocando pequenas entonações, ele dá pistas sobre o caminho que este irá seguir. O seu trabalho é de uma enorme sutileza e, ainda assim, vigor, já que é por meio da sua interpretação que o espectador consegue experimentar em profundidade o dolorido universo do protagonista. Sem a sua capacidade técnica, perder-se-ia o equilíbrio e, assim, a veracidade da obra.  

A combinação de atuações poderosas a um trabalho estético detalhista e criativo afasta “Meu Pai” das armadilhas de adaptações teatrais para outros meios. Ao contrário do também indicado ao Oscar “A Voz Suprema do Blues”, o filme de Florian Zeller em nenhum momento mostra-se engessado ou verborrágico: ele transita como um fluxo de consciência assustador, triste e, ao mesmo tempo tocante de um homem que perdeu suas referências e, por isso, está condenado a batalhar com sua própria mente.

Ficha Técnica

Ano: 2020

Duração: 107 min

Gênero: drama

Direção: Florian Zeller

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Imogen Poots, Mark Gatiss, Rufus Sewell

Avaliação do Filme

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