Por Luciana Ramos

 

Após um ano de atraso no lançamento, causado pelos desdobramentos da pandemia, “Morbius” finalmente chega aos cinemas, mas parece ter sido apressado e permanecer inacabado. A ausência latente de “algo a mais” se justifica pela superficialidade do roteiro, que apresenta um novo anti-herói em molde clássico, focando na sua humanidade e resiliência frente aos impulsos animalescos que se desenvolvem após um falho experimento.

O Dr. Michael Morbius (Jared Leto) dedicou sua vida a buscar uma cura para a desordem sanguínea que possui. Tendo crescido em hospitais, onde conheceu seu melhor amigo, Milo (Matt Smith), Michael ganhou respaldo da comunidade científica ao criar bolsas de sangue artificial (foi até laureado com um prêmio Nobel, mas resolveu recusá-lo sem justificativa em uma cena patética). No entanto, ele enxerga outro caminho para a evolução da medicina. Decide, então, viajar até uma floresta tropical e atrair com seu próprio sangue dezenas de morcegos que, uma vez capturados, tem o DNA extraído para combinação com a de outro animal. O que Michael não esperava ao se colocar como cobaia era perder totalmente o controle: suas feições mudam, ele passa a se movimentar pelas paredes e desejar sangue humano. Sem alternativas, o doutor esconde sua criação e dedica-se a tentar controlar suas reações.

Porém, a mudança de sua postura, força física e robustez acendem um alerta em Milo que, ao contrário do amigo, não dedicou sua vida a fazer muita coisa. Possesso por ser privado da “cura”, Milo rouba o soro e o toma, embora tenha sido alertado para os efeitos demoníacos do material. Sentindo-se vigoroso, ele enxerga a mudança como uma oportunidade de exercer poder sob os demais, aderindo a um comportamento predatório que provoca a escalada dos seus sintomas.

Assim, trava-se uma batalha entre os dois ex-amigos, pautada pelas diferenças morais entre eles, que sedimentam a narrativa. Mal escrita, esta fica rodando em torno desse embate sem se preocupar com o aprofundamento dos demais personagens. O Dr. Emil Nikols (Jarred Harris), por exemplo, poderia ter atuado como um mentor ou mesmo conciliador, visto a sua relação com os dois homens, mas é relegado a função de médico particular e se mostra incapaz de adicionar substância à trama. Do mesmo modo, nota-se a falta de investimento em uma história pregressa entre Michael e Milo que fosse ao mesmo tempo capaz de fortalecer a base da amizade e pontuar mais claramente as diferenças de concepções entre os dois para, no momento da ruptura, conseguir maior engajamento emocional. A falta de criatividade do diretor Daniel Espinosa resvala em um outro ponto que contribui para o marasmo: a escolha do tom. Sério em sua maior parte, o filme falha todas as vezes que tenta flertar com a comédia, ao mesmo tempo em que se revela insuficiente enquanto drama robusto.

O longa poderia escorar sua frágil narrativa em efeitos visuais impressionantes, que apostasse em sequências alucinantes de ação, mas não há capricho algum nesse sentido. Além de clichê, a estética se mostra simplória, abusando dos tons escuros como representação imagética da escuridão, tanto o habitat natural do morcego quanto uma metáfora à sensação que os toma por dentro. A fim de enaltecer a representação desses animais, são feitas algumas referências a obras conhecidas, como “Drácula”, além da adição de efeitos visuais que remetem aos seus característicos sonares. O emprego discreto desse recurso, porém, aliado ao uso de alguns clichês, como o slow motion, contribuem para o enfado que invade a experiência cinematográfica, condenando-a, por fim.

Incapaz de estabelecer conexão ou catarse, “Morbius” permanece no limbo de filmes genéricos e decepcionantes que Hollywood entrega vez ou outra. O pior de toda a equação é o modo forçado como, em determinado momento, tenta-se estabelecer uma conexão causal com o universo do Homem-Aranha, como se pudesse sugar um pouco de sua importância para si, determinando-se necessário para o fã que deseja acompanhar a jornada completa de seu herói favorito.

Ficha Técnica

Ano: 2022

Duração: 1h 44 min

Gênero: ação, aventura, terror

Direção: Daniel Espinosa

Elenco: Jared Leto, Matt Smith, Jarred Harris, Adria Arjona, Tyrese Gibson

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