Por Luciana Ramos

“Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei.” Jeremias 11:11, referenciado em diversos momentos do novo filme de Jordan Peele, sintetiza a trama em mais de uma forma: não só ela aponta o mal, trabalhado pelo roteirista e diretor na concepção de seres involuídos e violentos semelhantes aos personagens apresentados, como pela composição numérica da passagem bíblica, que pode ser interpretada como sequências de pares iguais.

Entregando-se mais diretamente ao gênero de terror depois da sátira metafórica “Corra!”, Peele constrói uma atmosfera sombria para expor sua tese sobre a dualidade humana, a intersecção entre os extremos – e até certo nível de dependência entre estes. Para isso, escolhe contar a jornada pelos olhos de uma família de férias.

Adelaide (Lupita Nyong’o), a mãe, encontra-se relutante em ir à praia por conta de um evento traumático na infância, mas aquiesce com os incessantes pedidos do marido (Winston Duke). O dia parece correr bem, apesar da angústia da mulher, que serve como preparo para o espectador de que algo ruim está prestes a acontecer. Eis que, à noite, a casa deles é invadida por quatro criaturas assustadoras, trajando vermelho e segurando tesouras, que os prendem e ameaçam. O aspecto mais bizarro, no entanto, se dá pela aparência deles, ou melhor, pela similaridade que eles possuem com Addy, Gabe, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex): são cópias perfeitas, somente diferenciáveis pela malignidade do olhar.

Começa, assim, um jogo pela sobrevivência destas quatro pessoas, que devem exterminar os “outros” a fim de sobreviver. Porém, quando eles enxergam a magnitude da invasão dessas criaturas, eles procuram também entender o mistério que os cercam.

Atendo-se à atmosfera do gênero, pautada na escalada contínua de tensão, o diretor trabalha com metáforas visuais e duplas narrativas para aprofundar a sua argumentação. Os coelhos, por exemplo, que acompanham os créditos de abertura, representam a reprodução (neste intuito, a criação de cópias), fazendo ainda uma possível ligação com as obras de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho” no sentido de pontuar a jornada de mergulho da protagonista nas profundezas para obter as respostas que procura. O espelho, especificamente, é a marca visual do trauma infantil, explorado ao longo da história por meio de flashbacks.

Igualmente interessante é a adoção de tesouras como arma dada a composição do objeto: são duas partes iguais que cortam (e ferem) quando se cruzam, unidas por um fecho no meio. Este é explicado na trama como sendo o compartilhamento de almas entre os humanos e os ditos “acorrentados”, que têm suas vidas ligadas de forma inexorável.

Assim, para Peele, o bem e o mal não são conceitos tão excludentes quanto parecem, estabelecendo o ambiente como um fator de formação preponderante, determinante de evolução ou regressão, que desemboca no uso da violência extrema. Assim, constrói sua argumentação a partir do confronto entre classes, o que confere ao filme uma conotação política.

A trama segue em ritmo ascendente até o término, mas sucumbe a pequenos artifícios narrativos no terceiro ato, como a inclusão de uma passagem extremamente verborrágica que explica os acontecimentos. Ao final, deixa algumas questões propositalmente em aberto, o que abre espaço para reflexão posterior, mas não deixa de decepcionar um pouco. Porem, é importante salientar que, ao incorporar um plot twist em determinado momento, ele sintetiza a sua argumentação e, assim, a potencializa.

O roteiro inteligente, que sabe mesclar as passagens de tormenta com alívios cômicos bem-vindos, é enaltecido por uma direção ágil e uma excelente trilha sonora. É impossível, no entanto, destacar os méritos do filme sem tratar das atuações, absolutamente determinantes para o sucesso da atmosfera de horror. É impressionante como Lupita Nyong’o, Winston Duke, Shahadi Wright Joseph e Evan Alex diferenciam a família tradicional que interpretam das suas cópias, um trabalho muito pautado na corporalidade. Nyong’o, em especial, apresenta uma performance irretocável, explorando a expressão do olhar e diferentes entonações vocais.

Jordan Peele, comediante que se lançou ao terror e conquistou Hollywood com “Corra!”, aprofunda-se nas possibilidades do gênero com “Nós”, tecendo elaboradas metáforas visuais e narrativas para explorar os limites do bem e do mal presentes em cada ser humano. Ao fazê-lo, firma o seu espaço como um dos diretores mais interessantes e autorais da nova geração.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 114 min

Gênero: terror

Direção: Jordan Peele

Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Sahadi Wright Joseph, Evan Alex, Elisabeth Moss

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