Por Marina Lordelo

Existem inúmeros fatores para que um filme seja realizado. Primeiro precisa existir um roteiro interessante seguido de uma equipe de produção empenhada no fazer acontecer. Daí entra a escolha da direção (que pode ser o próprio roteirista), fotografia, design de produção (ou arte, como se chama no Brasil), casting, desenho de som, montagem, colorização, finalização… ufa! Isso apenas para que o produto do roteiro se torne audiovisual (outras funções foram imprudentemente ignoradas por esta lista) – sem contar todo o fluxo necessário para a distribuição e enfim chegar ao cinema (ou à TV, como tem sido ultimamente para alguns filmes). Esse preâmbulo é necessário para entender um pouco do que viveu Terry Gilliam em seu mais novo filme, “O Homem que Matou Dom Quixote” (2019), que demorou cerca de 25 anos para ser realizado e enfim estrear nos cinemas.

Gilliam partiu de uma ideia ousada, uma espécie de adaptação contemporânea do clássico literário Dom Quixote de La Mancha do espanhol Miguel Cervantes, centrado no personagem de Sancho Pança, o fiel escudeiro do cavaleiro desmantelado. Em 2000, começou a pré-produzir a história do roteiro de “O Homem que Matou Dom Quixote”, onde o personagem Toby acidentalmente viajaria no tempo e se encontraria com Dom Quixote, que o confundiria com Sancho Pança. Infelizmente para o diretor e sua equipe, uma série de problemas aconteceu: choveu no deserto (literalmente), enchentes destruíram os equipamentos, o ator que faria Dom Quixote teve um grave problema de saúde durante as filmagens, jatos da força aérea estragaram vários takes e o orçamento ruiu. Tudo isso gerou inclusive um documentário “Lost in La Mancha” (2002) feito por Keith Fulton e Louis Pepe, que, convidados por Gilliam, relatam as intercorrências da produção.

Na versão de 2019, lançada em 2018 nos Estados Unidos, algumas premissas permaneceram e Adam Driver é Toby, um cineasta com um orçamento substancial para lançar uma campanha baseada na história de Dom Quixote. Em sua busca por inspiração, retorna a cidade onde filmou seu primeiro longa-metragem também centrado no personagem de Cervantes e o seu Dom Quixote (Jonathan Pryce) o leva em uma espécie de aventura transtemporal onde assumirá a persona de Sancho Pança.

Centrado na atmosfera de conto de fadas, o realizador tenta articular a metalinguagem do fazer fílmico, desde a cena de abertura até incursões pelo segundo ato. Sempre que cita o filme original que impulsionou a carreira de Toby, a cena é monocromática, com poucos diálogos, pressupondo a preparação “original” de não-atores, referindo-se, inclusive, a diferenciação que o mercado cinematográfico assume entre filmes ditos “de arte”, com humor e escracho, reiterando o tom de toda a película.

A montagem flerta com o clichê temporal, mas é eficiente em transportar o espectador através de cortes feitos em raccord de movimento, mas conservadora em assumir alguma inventividade nos momentos de transição no tempo. A fotografia de Nicola Pecorini é de contrastes (positivos e negativos), planos holandeses em excesso, grandes angulares incômodas que supostamente funcionariam como cômicas, associadas a planos fotográficos esteticamente impecáveis e a chroma keys perceptíveis. A câmera é tão variada e inventiva que salta de forma impiedosa pela tela.

Mas é o roteiro de Gilliam em parceria com o seu produtor Tony Grisoni que anda em descompasso com o cavaleiro desmantelado – são tantos acontecimentos e didatismos narrativos que a dupla não alcança um arco razoável. O filme é ritmado, é divertido, mas é confuso e em algum nível pretensioso (e ainda há um grave problema na representação feminina),- parece que 25 anos de tratamento de roteiro não foram suficientes para encontrar uma boa medida. 

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 132 min

Gênero: fantasia, comédia

Diretor: Terry Gilliam

Elenco: Adam Driver, Jonathan Pryce, Stellan Skarsgård, Joana Ribeiro

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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