Por Luciana Ramos

 

A capacidade do cinema de refletir a realidade em toda a sua complexidade, acoplando o seu caráter reflexivo à experiência catártica que a define mostra-se uma ferramenta social poderosa – tanto para o bem quanto para o mal. Um dos exemplos é a profusão do radicalismo islâmico que levou os realizadores europeus, mais próximos desta realidade, a inserirem este tipo de narrativas em seus filmes.

Notou-se, portanto, um crescimento de obras sobre o assunto (“Adeus à Noite”, “Papicha”, “Meu Querido Filho”) mas, conforme observado pelo crítico Celso Sabadin, elas carregam em comum o tratamento um tanto superficial da questão, já que colocam o jovem árabe sempre como um fundamentalista religioso em busca do cumprimento da sua missão. A falta de complexidade destes personagens soma-se à evasão de uma linha de pensamento dissonante potente, além da exploração do sofrimento daqueles afetados diretamente pelos ataques.

Revela-se, assim, nas entrelinhas um caráter preconceituoso na abordagem do tema, fruto do olhar contaminado de quem, submetido ao medo, acaba por eliminar a complexidade no retrato do povo árabe. “O Jovem Ahmed”, dos irmãos Luc e Jean Dardenne, caminha por estes terrenos áridos, mas consegue alcançar patamares superiores pela preocupação em mostrar a multiplicidade dos pontos de vista.

A trama segue um adolescente de origem árabe que mora na Bélgica e venera um primo que morreu ao cometer um atentado terrorista. Obcecado em cumprir os rituais do Alcorão, ele se mostra absolutamente radical quanto a questões corriqueiras e se isola progressivamente dos que o rodeiam, seguindo estritamente as ordens do seu Imã. Este, por sua vez, aproveita da ingenuidade do garoto, apresentando-lhe vídeos e treinamento enquanto semeia o ódio.

Compelido a cometer um crime em nome da fé, Ahmed (Idir Ben Addi) é preso e levado para um reformatório no interior, onde ele deve ficar até que seja capaz de demonstrar entendimento e arrependimento sobre seus atos. A narrativa foca-se especialmente na sua vivência no local, explorando o radicalismo arraigado em contraponto à uma rede ampla de esforço jurídico, emocional, psicológico e afetivo de reabilitação.

É exatamente neste ponto que o longa dos Dardenne felizmente desprende-se da armadilha de uma composição preconceituosa: ainda que o protagonista seja muito bem delineado como um extremista, ele é mostrado como um ser claramente doente; a sua família não compartilha das suas visões, a sua mãe, em especial, sofre com a impotência da sua transformação.

Não obstante, há a figura da professora (Myriem Akheddiou), a representação máxima do seu ódio, que responde às agressões físicas e verbais com inúmeras tentativas de diálogo, de remediação. É interessante notar, por exemplo, a cena em que ela reúne os alunos e pais árabes da escola para propor o ensino da língua através de músicas. Mesmo em maioria opositores, os personagens compõem argumentos dissidentes sobre a questão, revelando um esforço maior dos diretores em aprofundar o debate – ainda que não seja perfeito, representa um avanço em relação a outros filmes sobre o mesmo tema.

Ainda assim, assistir o fundamentalismo aparentemente irremediável de Ahmed é uma experiência absolutamente desconcertante, em especial pela escolha dos Dardenne de não oferecer caminhos sólidos ou resoluções fáceis, focando-se mais na extrema dificuldade de recuperar um jovem após a radicalização. É através desta inquietação, da perturbação emocional que a complexidade da abordagem do tema se revela, abrindo espaço para reflexão após o término da exibição.

 

*Filme assistido como parte da cobertura da 43ª Mostra de Cinema Internacional de SP

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 90 min

Gênero: drama

Diretor: Jean Pierre Dardenne, Luc Dardenne

Elenco: Idir Ben Addir, Olivier Bonnaud, Myriem Akheddiou

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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