Por Luciana Ramos

 

A jovem Daphné Despero (Alice Isaaz) deseja obter sucesso na sua carreira de editora, o que, no mundo atual, prescinde a descoberta de um best seller. Durante uma visita ao pai em Crozon, na Bretanha, ela decide arriscar e visitar uma livraria que guarda manuscritos renegados. Lá, de forma surpreendente, encontra “As Últimas Horas de Uma História de Amor”. A sofisticação do romance, que contrapõe o término de um relacionamento à morte trágica do poeta russo Pushkin a estarrece; a sua publicação, por sua vez, a torna famosa.

O alarde mundial em torno da obra se dá pelo autor, Henri Pick, um homem pacato e recluso que trabalhou boa parte da vida como pizzaiolo e morreu há dois anos sem nunca ter revelado sua obra. Sedentos por uma boa história, leitores, especialistas e marqueteiros se encantaram pela complexidade interior de alguém aparentemente simplório, uma profundidade existencial que nem sua família tinha conhecimento.

Em turnê promocional, Daphné, Madeleine (Josiane Stoléru), a viúva de Pick e Joséphine (Camille Cottin), sua filha, vão ao programa do respeitado crítico literário Jean-Michel Rouche (Fabrice Luchini), que as recebe com incredulidade e sarcasmo. Sua negativa é uma mistura de arrogância, elitismo e frustração: como ele, alguém tão inteligente e culto, não obteve sucesso comercial, mas um pizzaiolo bretão pode ter conseguido, e pior, após a morte? Seu mau humor apenas piora quando é demitido pelo modo como lida com o mistério, o que lhe motiva a seguir seu instinto (rapidamente convertido em obsessão) e investigar a fundo a história – preferencialmente, a descreditar e, assim, retomar um pouco do prestígio profissional.

A viagem a Crozon somente exacerba suas dúvidas, já que o dito escritor não era conhecido por se lançar ao hábito da leitura, muito menos por conhecer história russa. Inicialmente movida por defender o nome do seu pai, Joséphine aceita o desafio de esclarecer as inúmeras discrepâncias que cercam a história do romance esquecido e passa a ajudá-lo. A trama acompanha os dois no desenrolar do caso, sempre com leveza, explorando as sucessivas frustrações da dupla para proporcionar boas risadas. A dinâmica entre eles funciona muito bem pois a figura feminina suaviza os contornos ásperos e antipáticos do protagonista. Aos poucos, somadas as incongruências, também o espectador se vê além do preconceito inicial do crítico, comprando um pouco da sua incredulidade.

Atendo-se a responder as questões práticas que levanta, o roteiro esquiva-se de maiores aprofundamentos, não propondo grandes reflexões. Ainda assim, na caracterização de uma cidade ansiosa em lucrar com o escritor falecido ou na exaltação do romance ao redor do mundo, tece pequenos comentários sobre o mundo elitista da literatura e a avidez das pessoas em acreditarem nas narrativas mais impressionantes – no caso, tanto pelo mistério atestar conceitos socialmente desvirtuados como genialidade, como, exatamente por isso, oferecer esperança aos sonhadores. Estes questionamentos, tanto de ordem conceitual como mercadológica, ressoam no olhar de Daphné, que usa tais parâmetros para julgar seu interesse amoroso, Fred (Bastien Bouillon), e, logo, baliza o modo como ela o trata.

Com ótimas sacadas e excelentes atuações, “O Mistério de Henri Pick” mostra-se sagaz e divertido, oferecendo um final condizente e satisfatório que reforça os temas tratados até então.

 

 

Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Varilux de Cinema Francês 2019

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 104 min

Gênero: comédia, drama

Diretor: Rémi Bezançon

Elenco: Fabrice Luchini, Camille Cottin, Alice Isaaz, Bastien Bouillon

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Avaliação do Filme

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