Por Luciana Ramos

 

Após perder os pais em um trágico acidente, Lewis Barnavet (Owen Vaccaro), de dez anos, é mandado para morar com o tio Jonathan Barnavelt (Jack Black), de quem só ouviu falar. A aparição um tanto extravagante deste provoca no garoto um misto de fascínio e medo, algo somente potencializado quando os dois chegam na casa onde habitarão juntos. Completamente oposta à modernidade da vizinhança, a mansão antiga e entulhada de móveis dos mais diversos períodos provoca tremores em Lewis, que parece sentir que o lugar esconde muitos mistérios.

O convívio com o tio e sua melhor amiga, Florence Zimmermam (Cate Blanchett), apazigua um pouco do seu sentimento de perda, mas o seu isolamento dos colegas de classe reacende sua solidão. Aos poucos, enturma-se com Tarby Corrigan (Sunny Suljic) e tenta seguir em frente com a sua vida, mesmo inundado por lembranças da sua falecida mãe, que aparece em sonhos. Ao descobrir que seu novo tutor e sua vizinha são, na verdade, feiticeiros, ele se lança no aprendizado da prática, uma forma de superação.

 

 

Em meio a pequenos truques de mágica bastante úteis – como os que arrumam sua cama pela manhã ou o vestem rapidamente – ele descobre que a casa contém um segredo: seu antigo dono, o maligno Isaac Izard (Kyle MacLachlan), construiu e escondeu um relógio cujo tic tac anuncia uma tragédia de proporções imensas. Lewis então junta-se a Jonathan e Florence para tentar descobrir sua exata localização e, assim, destruí-lo antes que seja tarde.

“O Mistério do Relógio da Parede” baseia-se no livro homônimo publicado com bastante sucesso em 1973 por John Bellairs. Similaridades à parte com obras posteriores apoiadas em magia e orfandade, ele consagrou-se na época pela inventividade, em especial pela mistura do tom lúdico e atraente ao público infantil com o tratamento de temas pesados, como a morte e a sensação de isolamento social.

Sua adaptação cinematográfica segue essas linhas gerais, incluindo o suspense como força motriz da narrativa. Por ser construída em bases sólidas, ela flui naturalmente, facilitando a imersão na jornada dos seus personagens. Estes, por sua vez, são bem fundamentados, dotados de certa complexidade e, acima de tudo, empáticos.

A trama é potencializada pelo cuidado com os elementos técnicos, em especial a direção de arte, extremamente rica e diversas, que delineia bem os espaços, sempre com a adição de algum elemento excêntrico que desperta a curiosidade. As cores são trabalhadas didaticamente, apostando na contraposição dos tons fortes do meio social – vizinhança e escola – com tons mais sombrios, voltados para o verde escuro, marrom e violeta (característico da personagem Florence) para as passagens no interior da mansão. Os efeitos especiais, da mesma forma, são muito bem empregados, o que torna as cenas que incluem magia factíveis dentro daquele universo, além de visualmente apelativas.

 

 

Eli Roth, diretor acostumado a produções mais sombrias, faz uma boa transição para o mundo infantil, sabendo aproveitar o melhor de cada espaço e cada personagem. A seu favor, está um elenco afinado: Cate Blanchett preenche seu papel com seu usual talento, conferindo profundidade emocional nos momentos necessários; Owen Vaccaro convence enquanto protagonista, dotando Lewis de naturalismo e empatia e Jack Black, que parece ter se especializado neste tipo de filme, está bem à vontade na pele de seu personagem, contrapondo aos outros pelo tom exagerado, que funciona na trama.

Ainda que seja eficiente em linhas gerais, a produção não empolga quanto deveria. Pequenos problemas narrativos aparecem ao longo da trama, exigindo que o espectador os releve em benefício da experiencia. É o caso dos óculos, fracamente fundamentados e sem serventia, já que a citada série televisiva aparece de maneira superficial. Assim, serve apenas para fazer o protagonista parecer estranho e descolado frente a seus colegas, um recurso um tanto forçado. A transformação súbita de seu amigo Tarby também incomoda: apesar de servir para impulsionar a trama, parece apressada e, portanto, fraca.

No entanto, o grande problema relega-se à aparição dos feiticeiros Selena (Renée Elise Goldsberry) e Isaac Izard, que não atingem o efeito desejado. Até este momento, o longa trabalha bem a contraposição da realidade do protagonista à magia, que serve como válvula de escape. O suspense, quando consolidado na figura desses dois personagens, não consegue se mostrar tão aterrador como prometido, o que prejudica o filme como um todo.

Apesar de não provocar tanta empolgação, “O Mistério do Relógio da Parede” segue eficiente até o seu desfecho, em grande parte pela combinação dos efeitos visuais e simpatia pela jornada de Lewis, Florence e Jonathan. Apesar de destinada a todas as idades, a produção será melhor aproveitada por crianças, para quem o material se mostrara mais apelativo.

 

Pôster

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficha Técnica

 

Ano: 2018

Duração: 104 min

Gênero: comédia, família, fantasia, suspense

Direção: Eli Roth

Elenco: Jack Black, Cate Blanchett, Owen Vaccaro, Renée Elise Goldsberry, Kyle Maclachlan

 

Trailer:

 

 

Imagens:

Avaliação do Filme

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