Por Murillo Trevisan

 

Não se pode discordar de que Damien Chazelle é atualmente o garoto prodígio de Hollywood. Detentor de uma carreira curta, porém incontestável, aos 33 anos ele já recebeu três indicações ao Oscar e levou uma estatueta pela direção de “La La Land: Cantando Estações” na premiação de 2017. Sua obras carregam em similaridade o apreço pela música – principalmente o Jazz – que pode ser evidenciado em “Whiplash” (2014) e no próprio “La La Land” (2016). Outra semelhança entre seus filmes até então é a jornada do homem “comum” em busca de ir além; a superação de seus protagonistas e as barreiras que tem que ultrapassar para chegar no seu ápice.

Com status reforçado na indústria, Chazelle agora conseguiu tirar do papel um antigo projeto e, com a ajuda de Josh Singer (ganhador do Oscar 2016 de Melhor Roteiro Original por “Spotlight – Segredos Revelados”), dar seu tom para a história do astronauta Neil Armstrong, a primeira pessoa a pisar na Lua.

Baseado no livro de James R. Hansen, “O Primeiro Homem” mostra não só a obsessão dos americanos por vencer os russos na corrida espacial, mas também traz um estudo de personagem, transformando um evento grandioso em algo mais intimista, deixando de lado o “salto gigantesco para a humanidade” para dar mais importância aos “pequenos passos de um homem”.

 

 

Repetindo a parceria com o diretor, Ryan Gosling assume o protagonismo e encontra em Neil Armstrong talvez o papel mais confortável de sua carreira. Por se tratar de uma figura apática e sem fortes expressões, não se faz necessário grandes esforços para cativar o público. Ele já havia construído algo parecido com seus personagens dos filmes de Nicolas Winding Refn (“Drive” e “Só Deus Perdoa”), onde substituía o carisma pelo aprofundamento psicológico exposto em forma de violência, mas dessa vez não encontra uma característica peculiar que possa servir de válvula de escape para sobressair.

Com passagem livre para se destacar, Claire Foy (“The Crown”) faz o que é de praxe em sua carreira e traz excelência à sua personagem. Janet Armstrong, esposa de Neil, sustenta o peso das escolhas do marido e é quem realmente suporta as perdas e infortúnios dessa jornada. A passagem onde ela o obriga a acordar seus filhos e contar a eles que sua viagem para a Lua pode não ter volta evidencia sua exaustão em carregar o fardo da família quando se é deixada para trás, justamente onde a gravidade é mais forte. O impacto desta cena em particular carimba o passaporte da atriz para o Oscar 2019.

 

 

A intenção do diretor em narrar a trajetória da pessoa e não a grandeza do fato se evidencia ainda mais com a extravagância na fotografia de Linus Sandgren (“La La Land: Cantando Estações”). Com enquadramentos bem fechados, em primeiríssimo primeiro plano e close up em grande parte do longa, somos sugeridos a nos envolvermos com a trama sem se importar com o arredor. Optar por câmeras subjetivas em situações de perigo e claustrofóbicas também tem por função colocar o espectador a par dos riscos de uma viagem espacial. Algumas cenas colocam Armstrong em quase completa escuridão, sendo iluminado apenas pela luz do luar (o famoso “Moonlight”, palavra traumática para Chazelle). Por fim, o uso de granulação na imagem, intercalando entre película 16mm e 32mm, nos localizam no tempo da história.

Também da equipe de “La La Land”, Justin Hurwitz retorna para compor a trilha sonora e enriquecer a obra. Ele passeia com a sonoridade visitando desde sua obra no musical anterior com notas que lembram “City of Stars”, até “2001: Uma Odisséia no Espaço” de Kubrick, quando sua valsa se soma às belas imagens espaciais. Não menos importante, o silêncio também se faz presente quando necessário.

Ao longo de exageradas 2h 21min de projeção, o roteiro torna-se cansativo e monótono. Uma vez que o desfecho não é surpresa alguma para o espectador, o clímax acaba se dando por conta de algumas set pieces (cenas específicas de grande apelo), que pela excelência na execução técnica, devem ser lembradas por um longo período pelos espectadores e, talvez, pelos membros da Academia.

 

Pôster

 

 

Ficha Técnica

 

Ano: 2018

Duração: 141 min

Gênero: biografia, drama, história

Direção: Damien Chazelle

Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll

 

Trailer:

 

 

Imagens:

 

Avaliação do Filme

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