Por Marina Lordelo

Quando um professor de francês se suicida em plena atividade escolar, Pierre Hoffman (Laurent Lafitte) é contratado para assumir a turma de alunos intelectualmente precoces na tradicional escola St. Joseph. Centrado nesta sinopse misteriosa, “O Professor Substituto” (L’heure de la sortie, 2019) é dirigido por Sébastien Marnier e co-roteirizado pelo escritor do livro homônimo Christophe Dufossé, Elise Griffon e pelo próprio diretor.

Pierre é substituto por não ter concluído sua tese, centrada na obra do escritor tcheco Franz Kafka. Essa informação é importante para estabelecer a atmosfera de mistério e angústia do filme, dignos de uma obra Kafkiana direcionada sobretudo n’A Metamorfose. O cenário meticuloso varia entre a arquitetura clássica francesa, uma pedreira e espaços residenciais construídos no entorno de uma paisagem natural, um circuito preciso de locações que têm importância narrativa tal qual seus personagens. 

Um dos elementos predominantes para a construção do suspense narrativo é o desenho de som, que explora os tons agudos e graves, frequentes em filmes de gênero, associados à sonoridades da diegese das cenas: portões, passos, conversas e ambiência, que tentam equilibrar o realismo e o inquietante – a todo momento o filme reverbera que há algo de estranho. Seis estudantes em particular entram em conflito com Pierre, notadamente os mais inteligentes de uma turma de doze, liderado pela jovem perfeita Apolline (Luàna Bajrami), em uma referência clara ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

“O Professor Substituto” é um filme que trata ao mesmo tempo do hiato entre gerações e das aproximações catastróficas a que ambas estão sujeitas – presságios apocalípticos são tratados com uma dramaticidade tocante, seja nos planos em que Pierre descansa em sua casa a partir de uma paisagem composta por uma Usina Nuclear, ou quando os jovens montam vídeos de desastres industriais e ambientais pelo mundo. Nesse sentido, o filme ganha uma dimensão curiosa que dialoga com “No Coração da Escuridão”, de Paul Schrader, assumindo uma complexidade de ambiguidades e questionamentos necessários à humanidade – a obra assume uma espécie de descrença incômoda, imprescindível ao mergulho do espectador.

Alegorias diversas e muitas perguntas. O filme não trata de encontrar respostas ou de explicar acontecimentos, e, neste sentido, habilmente satisfaz as expectativas de assumir tamanha responsabilidade. Sem sorrisos e repleta de camadas, a geração Z delata um sintoma causado pelas gerações pregressas, irrecuperável, imensurável e irreparável.

 

Essa crítica faz parte da cobertura do Festival Varilux de Cinema Francês 2019

FICHA TÉCNICA

Ano: 2019

Duração: 104 min

Gênero:  mistério, suspense

Diretor: Sébastien Marnier

Elenco: Laurent Lafitte, Emmanuelle Bercot, Luàna Bajrami

Trailer:

Avaliação do Filme

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