Por Melissa Vassalli

Tudo parece em paz na vida de Holly (Julia Roberts), até que Ben (Lucas Hedges), seu primogênito, volta inesperadamente para casa na véspera de Natal, após um período internado em uma clínica de reabilitação. O reencontro entre a família reaviva lembranças traumáticas e ela é a única que parece feliz com a visita, ainda que também tenha dúvidas quanto à recuperação de seu filho.

Esse é o argumento de “O retorno de Ben”, drama dirigido e roteirizado por Peter Hedges (pai de Lucas). O filme aborda o vício em drogas sob a perspectiva da relação intensa e conturbada entre mãe e filho, o que faz com que a história dependa muito da atuação dos protagonistas, e isso é uma de suas qualidades.

Lucas Hedges coloca em evidência a ambiguidade de seu personagem, que é extrovertido com os irmãos mais novos e preocupado com o bem-estar de sua família, ao mesmo tempo em que desperta o ódio e a desconfiança de muitos que estão à sua volta. Julia Roberts, por sua vez, interpreta a clássica matriarca disposta a tudo por seus filhos, mesmo que isso a leve à exaustão mental. Holly, no filme, se desdobra para manter seu casamento e a ordem em casa, garantindo que as crianças fiquem entretidas e alheias aos conflitos do irmão mais velho.

Esteticamente, o uso de câmera na mão denota tanto a instabilidade de Ben quanto a constante vigília sobre ele – o acordo para que o jovem não retorne para a clínica é que ele fique limpo e esteja sempre sob às vistas de sua mãe. Além disso, há um contraste entre as luzes quentes e aconchegantes dentro da residência e o clima frio e acinzentado da cidade. Embora Ben tente se reintegrar ao conforto do lar, ele é sempre mandado para fora, seja por algum personagem ou por algum acontecimento da narrativa.

Há também uma contradição no seu relacionamento com Holly, pois o que parece ser preocupação e cuidado pode facilmente se transformar em desconfiança e invasão. Seria interessante se o filme aprofundasse essa discussão, mas Hedges opta por separá-los em um determinado momento. Isso aumenta a carga dramática, já que teoricamente o garoto fica mais exposto e sua mãe mais apreensiva, mas este artifício narrativo soa desnecessário, já que a interação do protagonista com as drogas independe do ambiente em que se insere.

No geral, “O retorno de Ben” parte de uma premissa interessante e coloca luz sobre um tema que precisa ser discutido. É um filme que tem boa execução, mas se perde quando muda o foco de sua proposta inicial – a relação entre mãe e filho – e cria demandas externas como ameaça. Muitas coisas sobre o passado problemático do personagem são mencionadas, mas pouco exploradas, eximindo a obra de várias discussões sobre ética, moral, culpa e responsabilidade. Nos momentos em que se lança a uma abordagem mais humana, o filme ganha em originalidade. Já a irresolução do enredo é um ponto positivo. Embora seja angustiante não saber se Ben terá, de fato, uma nova chance, isso é coerente com o tratamento de um vício e com a própria vida. Um dia de cada vez, um dia após o outro, sem certezas, nem garantias.

Ficha Técnica

Ano: 2018

Duração: 103 min

Gênero: drama

Diretor: Peter Hedges

Elenco: Lucas Hedges, Courtney B. Vance, Julia Roberts

Trailer:

Imagens:

Avaliação do Filme

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