Por Luciana Ramos

“O que a América significa para você?”, pergunta Natasha (Yara Shahidi) diretamente ao espectador. Para ela, o país representa sua infância, o berço dos sonhos de seus pais, a lembrança de dias comuns, os projetos para o futuro. O seu senso de pertencimento e construção identitária é desafiado quando recebe a notícia da deportação imediata da sua família para a Jamaica.

Inconformada, ela decide tirar o último dia em solo americano para lutar pela permanência, sem saber que outro acontecimento extraordinário a espera: o encontro com Daniel Bae (Charles Melton). Assim que avista a garota na Estação Central trajando uma jaqueta com os dizeres “Deus Ex-Machina”, que curiosamente havia anotado no seu caderno na mesma manhã, o rapaz decide arriscar perder sua importante entrevista para faculdade a fim de segui-la. Sonhador e excessivamente romântico, ele se convence no poder do destino e, simplesmente assim, decide que Natasha, que ainda não conhece, é a mulher ideal para si.

Sob o clichê banal e pouco inspirado dos dizeres “você salvou a minha vida”, eles se encontram e nem mesmo a visão racional e metódica da garota, que desconfia de sentimentalismos baratos, o faz desistir de conquistá-la. Para isso, Daniel a desafia, prometendo que, ao final do dia, eles estarão apaixonados. Seu plano envolve uma série de perguntas banais, que prometem revelar as profundezas das almas de ambos.

É com esta premissa pouco factível que “O Sol Também É Uma Estrela” se constrói. Adaptação do best seller de Nicola Yoon, o filme embasa-se no recente enrijecimento das leis imigratórias dos Estados Unidos sob tutela do presidente Donald Trump e o decorrente impacto na vida dos “dreamers”, pessoas que imigraram para lá ainda crianças e que, por isso, mantém fortes relações de identidade com o país – e pouco ou nenhum envolvimento com os seus locais de origem. Isto torna as suas deportações extremamente traumáticas: trata-se da necessidade de adaptação da projeção de uma vida inteira de maneira súbita e não muito justa.

A intenção do livro e, por conseguinte, do filme, é humanizar uma personagem com esta jornada, explorando o modo como sua percepção de mundo foi moldada pelo espaço em que cresceu – o que justifica a sua luta pela reabertura do caso de seus pais.

Infelizmente, todo este rico panorama social e político é relegado a segundo plano diante das possibilidades mercadológicas de um romance adolescente. Por si só, este já configuraria um problema grave, mas o roteiro de Tracy Oliver parece fazer questão de explorar todos os clichês possíveis, aproximando o longa do intragável.

Daniel, concebido como romântico incorrigível, parece (sob as lentes frias da realidade, fora da imersão fílmica) um stalker com complexos profundos, determinados a adequar Natasha aos seus moldes pré-concebidos por conta de uma coincidência – a nota de seu caderno e a jaqueta dela – apresentada de maneira tão despojada que soa arbitrária.

A evolução da narrativa somente acentua o artificialismo do enlace, provocando um incômodo que beira a ojeriza. Não obstante, os problemas de ambos são relegados a discussões verborrágicas que representam a perda de oportunidade de tratar questões essenciais (como a citada situação de Tasha e a pressão familiar e cultural que Daniel sofre) de forma mais enfática.

Permeado por frases de efeitos, o insosso romance é complementado por inserções em voz over da protagonista, que tenta contextualizar sua experiência segundo preceitos racionais, recurso interessante, mas explorado de maneira intermitente.  Assim, sem muito a oferecer além da pieguice de um encontro guiado pelo destino, “O Sol Também É Uma Estrela” não consegue se mostrar relevante ou ao menos original.

Ficha Técnica

Ano: 2019

Duração: 100 min

Gênero: Drama, Romance

Diretor: Ry Russo-Young

Elenco: Yara Shahidi, Charles Melton, Keong Sim, Faith Logan, Gbenga Akinnagbe

Avaliação do Filme

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