Por Felipe Galeno

Houve um momento em Hollywood, pelo fim do século passado, em que filmes sobre investigações criminais e serial killers surgiam aos montes. Por mais que o cinema americano sempre tenha se interessado por esse tipo de história, há um movimento de transição na produção de horror/thriller, por volta do início dos anos 90, que troca os slashers histriônicos da década anterior por uma categoria de suspense policial um pouco mais séria e com um olhar mais procedural – um movimento provavelmente impulsionado pelo sucesso de crítica e bilheteria de “O Silêncio dos Inocentes”, em 91. É desse contexto que parece surgir “Os Pequenos Vestígios”. Mesmo sendo um lançamento, o filme do cineasta John Lee Hancock parece ter vindo, em seus melhores momentos, da prateleira de thrillers noventistas de uma locadora.

A semelhança não é mera coincidência; a primeira versão do roteiro de “The Little Things” (no original) foi escrita por Hancock em 1993. À época, o roteirista ofereceu o projeto a Steven Spielberg, que acabou recusando por achar o texto ‘sombrio demais’. Após quase três décadas, já com uma breve carreira na direção, ele resolveu assumir o comando de sua própria produção, que se assemelha, tanto em tom quanto em premissa, a obras como “Se7en” (1995). O filme acompanha Joe Deacon (Denzel Washington), um ex-detetive que trabalha como policial rodoviário em uma cidade pequena e, ao visitar Los Angeles, decide voltar a rotina de investigações para ajudar o novo detetive da cidade (Rami Malek) a encontrar o culpado por uma série de assassinatos que assola a região.

Um dos primeiros acertos do longa está na escalação de Washington como protagonista. O ator, além de ser um dos mais talentosos em atividade, foi um dos rostos que marcaram as produções do gênero nos anos 90 (a exemplo de “O Colecionador de Ossos”) e, com isso, agrega muito à atmosfera pretendida pela produção. Por mais que Denzel esteja longe de seus momentos mais inspirados, ele é um performer com tanta sensibilidade que consegue adicionar sutilezas e dialogar com o longa mesmo sem grandes esforços. Isso eleva as sequências de “estudo psicológico” do filme, que até soam um pouco deslocadas com a proposta de gênero, mas encontram certa harmonia através do seu trabalho de ator.

Seu protagonista é um homem amargurado que conhece como ninguém os traumas que podem decorrer da dedicação a uma investigação. Ainda assim, há algo nele que não consegue ficar indiferente diante da ameaça de um serial killer, algo que está ligado tanto a um senso de justiça quanto uma espécie de profissionalismo obsessivo, uma necessidade de cumprir seu trabalho com integridade. É esse sentimento que ele reconhece no detetive Jim Baxter (Rami Malek) e que o move a ajudá-lo na busca, por mais que tenha tentado com afinco se afastar desse tipo de caso. 

Conforme a caçada ao assassino segue, a direção de Hancock vai conseguindo administrar sua narrativa com uma surpreendente simplicidade e franqueza. Há uma clara pressão em levar a história para um tom mais próximo dos dramas de Oscar contemporâneos e, como os já citados impulsos para um estudo psicológico de personagem indicam, o filme vez ou outra esboça apelar para esse caminho. Ainda assim, a mão de Hancock escapa, pela maior parte do tempo, das armadilhas de encher o filme de virtuosismos e encontra sua identidade na abordagem direta e despojada de um suspense à moda antiga.

É uma condução sóbria, que não quer soar saudosista ou anacrônica, mas apenas entende que essa abordagem mais contida faz sentido com os impulsos da história. Pode não parecer, mas o fato de o filme não tentar ser uma obra grandiosa e memorável e, ao invés disso, se aceitar como exercício de gênero corriqueiro é uma virtude que favorece muito a experiência no geral.

Isso não significa, porém, que as reviravoltas do thriller não tenham seus tropeços lá e cá. Depois de um ótimo segundo ato, o encaminhamento final da narrativa se aproxima de algumas ideias que não compensam por completo. Mesmo permanecendo fiel ao estilo simples da direção e ao tom melancólico do texto, o paralelo que um determinado twist tenta fazer soa um pouco insatisfatório, não parece desenvolvido o suficiente para abalar a história como esperado.

Não ajuda também o fato de boa parte do peso do desfecho se apoiar em Rami Malek, já que o ator é a escolha mais questionável do elenco. O ator sempre parece desconfortável demais para corresponder ao que é demandado de seu personagem e só funciona quando tem Washington ao seu lado para sustentar a cena. Fechando o trio principal está Jared Leto, em uma performance bem melhor sintonizada que a de Malek. Não é necessariamente um trabalho extraordinário, mas não deixa de ser uma boa atuação, especialmente por dispor das suas peculiaridades habituais a favor do longa.

É esperado, enfim, que “Os Pequenos Vestígios” não seja lembrado por muito tempo. Tal fato, no entanto, parece condizer com sua ideia de ser um suspense procedural médio, um tipo de entretenimento sombrio que foi perdendo espaço nos grandes estúdios cinematográficos após o início dos anos 2000. Pode não ser a mais complexa e promissora das pretensões que um longa pode ter, mas não deixa de ser um exercício interessante, que não se importa se parece antiquado ou não e entrega ao espectador basicamente o que prometeu.

Ficha Técnica

Ano: 2021

Duração: 128 min

Gênero: policial, drama, suspense

Direção: John Lee Hancock

Elenco: Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto, Michael Hyatt, Natalie Morales

Avaliação do Filme

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